esboços de uma sociologia lírica

O cotidiano pensado a partir de uma sociologia despretensiosa embebida de artes, prazeres e afetos.

Túlio Rossi

Alguém curioso tentando entender esse mundo e, quem sabe, eventualmente, fazer parte dele. Autor do livro: Uma sociologia do amor romântico no cinema: Hollywood, anos 1990-2000, Editora Alameda.

Sobre amores e cafés

Um conto levemente amargo, com cheiro de café.


cafe_01.jpg Há alguns anos se conheceram, turistas em Buenos Aires num fim de tarde de outono que já preconizava um inverno frio, mas com tons cinematográficos e alegóricos para o imaginário brasileiro: Cachecóis sobriamente coloridos mesclados à elegância cinzenta das históricas construções da capital argentina. Temperatura favorável para vinhos, empanadas, um chocolate quente “submarino” ou uma xícara de café ou chá com alfajor.

Ambos visitavam a cidade pela primeira vez e refugiaram-se no mesmo café naquele fim de tarde, sem grandes pretensões: apenas fugir do frio e suprir a demanda que o vício em cafeína lhes impunha. Não se sabe exatamente como travaram o primeiro diálogo, mas o tema central foi uma das poucas ressalvas que tinham em comum em seu passeio de férias: lamentavam, naquele momento, o preço e a qualidade do café.

Descobriram-se então dois admiradores exigentes da bebida: ávidos por buscar diferentes origens, mais ou menos entendidos de diferentes graus de torra e moagem, avessos a qualquer artifício que adoçasse a bebida e retirasse algo de seu sabor original. Ironizaram, aqueles dois habitantes de São Paulo – nenhum deles nascido lá – frequentadores assíduos de cafés, o fato de nunca terem se encontrado em sua própria cidade, mesmo frequentando os mesmos lugares.

Seguiram juntos o restante da viagem, alternando visitas a pontos turísticos, cafeterias e adegas. Trocaram experiências em vinhos, cafés, culinária, literatura, cinema, música e sexo. Este último em abundância, mas não o suficiente para conflitar com a tônica do momento, que era descobrir e experimentar as delícias de desvendar o novo: de uma loja de doces caseiros despretensiosa em San Telmo a uma marquinha bem discreta de nascença sorrateiramente escondida sob a alça do sutiã.

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Cultivavam um espírito desbravador de sentidos e se cruzaram na exploração de um velho mundo de sabores e cheiros novos para ambos. Partiram em dias diferentes, mas trocaram contatos. Cada um voltou a seu lar sentindo-se pleno; os dois confiantes na literalidade das palavras “até breve”.

E breve se encontraram, estreitaram laços e cultivaram mutuamente os apetites de seus espíritos desbravadores e seu vício por café. Iam a todo café que tinham notícia na cidade. De início, compravam pós de diferentes origens e safras. Não satisfeitos, compraram um moedor para poderem experimentar aqueles que só encontravam em grãos.

Planejaram e fizeram viagens juntos, tendo ritualizado a visitação aos cafés – ainda que ruins, ainda que caros – como um signo de seu relacionamento. Em tudo que partilhavam, o signo do café se fazia presente: sobremesas a base de café, canecas coloridas, grãos de café cobertos de chocolate, charmosas cafeteiras italianas, objetos decorativos...

Persistiram nisso por algum tempo mesmo após se juntarem no mesmo apartamento. As buscas por novidades se tornaram mais espaçadas, mas sentiam-se, na maior parte das vezes, em posição segura: já conheciam suficientemente os gostos um do outro, a forma de preparar e servir a bebida, os horários, os grãos que, mesmo não sendo seus favoritos, atendiam às demandas do dia-a-dia. Faziam economias para viajar, para experimentar vinhos e cafés, para celebrarem – ainda que de forma rotinizada e ritualizada – os prazeres de novas descobertas.

Depois de certo tempo de convivência, a rotina, como esperado, também se alojou naquele lar, o que, em si, não foi nenhum grande problema. De forma rara, os dois ávidos por novidades se entendiam e funcionavam como parceiros sem que a rotina chegasse a abatê-los. Inquilina incômoda, ela não chegava a ser insuportável, dada a forma tão minuciosa e precisa que os dois se encontravam ajustados.

E nesse ajuste, a ritualística do café permanecia já com características diferentes daquelas do início do relacionamento, mas como elemento que inaugurava o dia do casal e, por vezes, nos fins de semana, seus fins de tarde com amigos. Entre brigas e afagos, silêncios e gemidos, todos os seus dias começavam com um café minuciosa e religiosamente preparado.

Após um período de intenso mal estar e sucessivos exames e diagnósticos, nossa heroína fora proibida por seu médico de ingerir cafeína. Obviamente a notícia não foi bem recebida embora acatada. Ela e o parceiro então passaram por um período de busca pelos melhores cafés descafeinados. Ele, em solidariedade e em nome da ritualística do casal, abdicara, em casa e em todos os lugares que frequentava com ela, da cafeína.

Com as devidas adaptações, mantiveram o ritual que iniciava seus dias. O elemento químico do vício podia ter se perdido, mas não o caráter simbólico que revestia todo o ato de preparar e consumir a bebida. Diversas vezes, lamentaram, irritaram-se e discutiram sobre o sentido – ou a falta – de consumirem café sem cafeína.

Alguns dias se viam apegados à substância e frustrados por sua ausência definitiva, mas em outros, notavam, apesar da ausência, a dependência do ato de segurar uma caneca que havia sido presente de aniversário do relacionamento, do afeto com que ele mirava os lábios dela se estreitando para soprar suavemente o líquido precioso ainda exalando vapores quentes e perfumados, da conversa sem assunto entre colocar e tirar a cafeteira do fogo...

Já não era da substância que se viam dependentes. Por outro lado, sua falta não passava despercebida e incomodava. Incomodava ele, caso a desejasse, dever buscá-la fora das vistas dela, mesmo que ela soubesse e até mesmo o incentivasse; bem como a incomodava a ideia de privá-lo de algo tão estimado por sua causa. Ambos conheciam esse mútuo incômodo e lidavam com ele abertamente, gerenciavam-no. Aos poucos, ele perdia o hábito de beber café, que já lhe causava dores de cabeça.

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Não demorou muito – por razões outras, presentes em relacionamentos com e sem cafeína – para que se separassem. Ela se apaixonou por um terapeuta holístico, conhecedor de chás, exercícios respiratórios e exímio praticante do tantra, o que foi suficiente para tornar o pó de café tão relevante para a vida dela quanto pó de giz. Ele, por outro lado, resignadamente, aceitou os fatos e, como bom parceiro que era não impôs resistências à sua liberdade. Sofreu calado aos olhos e ouvidos dela, mas verborrágico aos ouvidos de seus poucos amigos.

Meses de luto e transição se passaram, no que, apesar da ausência dela e de motivos, ele manteve, por muitas manhãs – ora por lapso de memória, ora por autocomiseração e celebração do luto – o ritualístico preparo do café descafeinado. Mesmo sem a conversa entre colocar a cafeteira no fogo e tirar o café, mesmo sem a imagem dos lábios estreitados fazendo ondulações na caneca que ele lhe dera de aniversário e que ela não levara consigo.

Habituara-se àquele café sem cafeína. Comprara de outro que consumia anteriormente, mas achara o gosto estranho, causou-lhe mal-estar. Levou um tempo, mas permitiu-se, ainda que trôpego, voltar a cultivar seu ímpeto desbravador, viajante, degustador... Visitou novos cafés, em novos destinos de viagens, mas percebera algo incômodo: onde quer que fosse, ainda que tomado de prazeres e afetos pelo cheiro sedutor das cafeterias, não conseguia mais degustar a tão apreciada bebida a não ser que fosse descafeínada.

A cafeína causava-lhe náuseas e dores de cabeça. Mesmo quando visitava alguns dos cafés que mais lhe apeteciam na cidade e pedia seus blends outrora preferidos, únicos, seletos, sentia-se incapaz de resgatar aquela sensação tão única e pessoal de prazer. O sabor outrora apreciado, em suas notas delicadas e profundas, provocava-lhe estranha aversão. Tornara-se estranhamente intolerante à substância que antes era seu maior vício. Contudo, não conseguia abandonar o cheiro que lhe remetia a ela, os gestos, a própria estética do ato de sentar-se em uma cafeteria e ingerir um líquido quente e negro.

Aos poucos, aprendera, na medida das possibilidades, a apreciar aquele prazer emulado, carente da substância química, mas ainda repleto de signos e de significados. Por vezes, questionava-se se o prazer que sentia era legítimo ou era emulado, ciente da ausência de substância. Contudo, permitia-se. Era o mais próximo que conseguia chegar, por meio de sucessivas e imbricadas associações.

Questionava-se recorrentemente se sua memória não lhe traía com as armadilhas fáceis da nostalgia de um sabor que se tornara esquecido. Assim, reproduzia os gestos, estimulava, quiçá mecanicamente, os sentidos agora limitados de seu paladar e do olfato. Buscava música no tilintar das xícaras e talheres em meio ao burburinho dos cafés. Refugiava-se na experiência do tato e da visão que, a rigor, não se alteravam na ausência da substância de seu vício. Ainda assim... nunca mais amou ninguém.


Túlio Rossi

Alguém curioso tentando entender esse mundo e, quem sabe, eventualmente, fazer parte dele. Autor do livro: Uma sociologia do amor romântico no cinema: Hollywood, anos 1990-2000, Editora Alameda..
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