esboços de uma sociologia lírica

O cotidiano pensado a partir de uma sociologia despretensiosa embebida de artes, prazeres e afetos.

Túlio Rossi

Alguém curioso tentando entender esse mundo e, quem sabe, eventualmente, fazer parte dele. Autor do livro: Uma sociologia do amor romântico no cinema: Hollywood, anos 1990-2000, Editora Alameda.

POR QUE OS HOMENS PRECISAM, URGENTEMENTE, FALAR SOBRE O MACHISMO

Uma conversa bem franca a respeito dos impactos do machismo na formação masculina


Masculinidade.jpg Imagem - autoria desconhecida

Não é a primeira vez que toco neste assunto aqui, mas vejo-me ainda bem longe de esgotá-lo.Percebo que, se por um lado, mais mulheres tem se conscientizado e mobilizado – com sucesso – contra as práticas e valores naturalizados que reiteram o machismo e a opressão de gênero em nossa sociedade, por outro, a maioria dos homens parece alheia e, às vezes, refratária a essas transformações.*

Mais do que por “medo” de perder privilégios, ou por um caráter “naturalmente opressor”, boa parte dos homens talvez ignore essas questões por dois motivos banais e inter-relacionados que desenvolvo a seguir: 1) Eles não se reconhecem como privilegiados e 2) Eles não acreditam que pautas feministas tenham qualquer coisa a ver com sua vida.

Em relação ao primeiro: um hipotético trabalhador negro, de baixa escolaridade, mal remunerado, que sofre injúrias cotidianamente, apertando-se nos ônibus para cumprir o papel de “macho provedor” dentro de sua família nuclear religiosa e patriarcal dificilmente se verá como privilegiado.

Muitas vezes, sem saber, ele é simultaneamente opressor e oprimido, privilegiado e desprovido. Como a maioria dos seres humanos, sua percepção será mais sensível ao abuso que ao privilégio. Seria difícil para ele engolir de uma universitária branca recém-chegada da Europa palestrando em sua comunidade que o fato de ser homem já o coloca num lugar de opressão em relação a ela.

Importante frisar que penso ser um erro comum simplesmente desqualificar privilegiados por terem privilégios e, com isso, desviar a atenção do problema que é o sistema em si que constitui e reproduz esses privilégios e inventa outros apenas com a finalidade de segregar e legitimar abusos.

Só a possibilidade de desfrutar e reivindicar os “direitos humanos universais” em sua plenitude, especialmente em nosso país, é um baita de um privilégio. Não é necessariamente o privilégio que faz o opressor, embora ofereça sim todas as condições favoráveis para que ele se forme. Cabe então realizar todo um exercício de autoconsciência e reconhecimento desses privilégios para que não se convertam em instrumentos de opressão.

Assim, creio ser fundamental desnaturalizar a condição masculina de privilégio e mais ainda a de opressor. Engana-se quem reduz o machismo a um sistema exclusivo de opressão de homens sobre mulheres, por mais que se reconheça que o sofrimento dessas é absurdamente maior. O machismo é fundamentado na opressão e na violência generalizadas e, embora fira – em todos os sentidos – prioritariamente as mulheres, ele tem impacto significativo sobre os homens.

RockyIII.jpg Rocky III (Silvester Stallone, 1982, EUA)

Estes não são formados apenas no riso fácil das mesas de bar, entre cantadas vulgares e conquistas sexuais – que às vezes nem acontecem – exibidas para os amigos. São formados, primariamente, no “Engole esse choro”; “Seja homem”; “Cai dentro”; “Não aguenta, mulherzinha?”; “Vai deixar barato?”; “Deixa de ser frouxo!”.

Como pano de fundo paira a questão nunca inteiramente respondida: “Você não é homem?” É ingênuo pensar que essas frases saem apenas de bocas masculinas ostentando gozo e superioridade entre um gole de cerveja, uma gargalhada e uma cantada.

Aqui, tomo emprestada ligeiramente a ideia de gênero como performance de Judith Butler: um agir constante, que implica discursos, gestos, trejeitos, como algo nunca pronto e acabado; que necessita ser reafirmado e marcado o tempo todo, no falar, no fazer e no sentir, sendo que isto se apresenta independentemente de gênero e orientação sexual.

No caso das performances que constituem o modelo mais comum de “masculinidade”, são possíveis muitas associações à expectativa de vida reduzida de homens em relação a mulheres:

Homens que não vão ao médico; que não aceitam uma ultrapassagem na rodovia, que precisam defender sua “honra” dos outros que olharem para “sua” mulher; que entram em coma alcoólico ao falhar miseravelmente em provas de resistência para se consagrarem nos ritos de iniciação aos calouros em tantas universidades...

Esse machismo não é diferente nem alheio ao que violenta e oprime mulheres. O inimigo é o mesmo e, cotidianamente, mata e violenta homens sem empoderar mulheres. Aqui entramos no segundo motivo apontado lá em cima. Muitos homens pensam que as pautas feministas simplesmente não lhes dizem respeito e não têm a ver com suas vidas.

Machismo2.jpg Imagem - autoria desconhecida

Contudo, é fundamental que homens problematizem suas crenças em relação a essas pautas, percebendo que eles têm, sim, parcela significativa de responsabilidade na manutenção de um sistema que tolhe e oprime as mulheres, ao mesmo tempo em que os forma oprimindo a si mesmos. Nesse sentido, o combate ao machismo não deve ser uma luta travada apenas de um lado. Menos ainda, contra o outro.

Nos estereótipos que circulam em redes sociais – e que pessoas, de todos os lados, infelizmente, abraçam e fazem questão de reforçar – o feminismo é reduzido a um “problema das mulheres com os homens”. Para muitos homens, às vezes, as pautas feministas não lhes dizem respeito por pensarem que se restringem a construí-lo como inimigo absoluto, essencialmente opressor e naturalmente execrável. Vendo deste modo, que mudança social seria possível?

Para outros, simplesmente, não lhes diz respeito por não compreenderem que as causas se referem a um contexto social mais amplo, onde o machismo se espalha nas ações e relações mais simples e cotidianas – muitas vezes bem intencionadas – como parte de sua cultura. Aqui se incluem muitas “cantadas gentis”, elogios e outras ações entendidas como formas de cortejar.

Nisso, perigosamente, não compreendem também que a cultura do estupro existe antes do estupro consumado, dentro de uma cultura machista mais ampla e às vezes sutil. Não entendem que, mesmo rigorosamente formados no discurso de nunca levantar a mão para uma mulher, legitimam a violência quando repetem que “uma mulher quando diz não quer dizer sim”, ainda que não venham a agredir ninguém fisicamente.

sadclown.jpg Sad clown - autoria desconhecida

Muitos pensam que são “menos homens” se não forçam limites, não demonstram “agressividade” e incansável persistência. Estes que se tornam pais de família, religiosos, moralistas, que podem ter conhecido suas esposas ao puxá-las pelo braço e força-lhes um beijo em uma micareta, acreditam que “cultura do estupro” é algo totalmente distante de sua realidade.

Em seu imaginário ingênuo, o estuprador é um homem animalesco, com sangue nos olhos, perambulando entre becos dos centros urbanos fedendo à cola de sapateiro e cachaça barata, surpreendendo jovens que “pagam o preço” por usarem a roupa e o batom “errados” enquanto perambulam em locais e horários que “não deveriam”.

Possivelmente, este hipotético pai de família religioso e moralista ensinará seu filho – que “tem” de ser homem e hetero – a nunca levantar a mão contra uma mulher, mas a conquistá-la como conquistou sua mãe: mostrando força, firmeza e impetuosidade.

Seus amigos de colégio reforçarão isso. Talvez sua primeira paixão ria dele porque, tímida e desajeitadamente, pediu-lhe um beijo, ao invés de “ser homem” e roubá-lo.

Na faculdade, competirá para ver quem “pega mais” e agirá muitas vezes de forma que não agiria se, sozinho, pensasse duas vezes. Isso tudo para assegurar sua hombridade para si, para seus amigos, mas, principalmente, para as mulheres à sua volta, as únicas com o verdadeiro poder de legitimar sua masculinidade.

Muitos, ao apagar das luzes, sonharão com a futura esposa que louvará seu ímpeto ousado e heroico ao salvá-la de outros iguais a ele. Em gratidão, ela lhe pagaria com o alívio de não precisar mais provar sua masculinidade para ninguém.

Engano óbvio, este será ensinado para filhos e netos indefinidamente enquanto tantos acharem que o machismo é um problema apenas para uma metade da população e pura festa para outra. Nisso, pessoas de diferentes gêneros e orientações sexuais são difusamente violentadas física e psicologicamente por um sistema comum. No fim das contas, o machismo não tem cara... e nem genitália.

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*- Agradeço imensamente à Anna e à Amanda pelas leituras e comentários atenciosos e empáticos na elaboração deste texto!


Túlio Rossi

Alguém curioso tentando entender esse mundo e, quem sabe, eventualmente, fazer parte dele. Autor do livro: Uma sociologia do amor romântico no cinema: Hollywood, anos 1990-2000, Editora Alameda..
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