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"A Arte sine qua non de viver"

Giuliana Murakami Paixão

Vivendo e escrevendo...

O consumismo teimoso e o prazer de ter

Comprar não é uma questão de ter o que se precisa. O mundo gira em torno de atitudes hedônicas perante os produtos ofertados pelas diversas empresas de naturezas distintas.


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O valor intricado nesses objetos é tão alto que beira a irracionalidade. Havia certo tempo que poderia atribuir os valores dos produtos a determinadas culturas, porém, na sociedade hodierna, o que se presencia é a vontade de ter o que o outro possui. E esse que possuiu antes ou foi engolido por uma força maior denominada marketing. O valor não é de necessidade, mas o discurso utilitário está presente nas justificativas dos indivíduos. “Comprei para desestressar!”, “Eu preciso de um celular novo, a imagem desse que saiu é de n megapixels”. Mas as compras de fato afastam estresse ou só aumentam o valor capital a se pagar no final do mês? Uma imagem perfeita vale o que seus olhos veem? Afinal, o celular não serve única exclusivamente para falar e ser ouvido?

O grande problema é que as perguntas supracitadas são respondidas pela própria sociedade. O afastamento do estresse ocorre, embora momentâneo, mas o suficiente para que a pessoa não surte. A imagem que chega aos seus olhos não conta para os olhos de outrem. O outro tem que ver que você está com o novo celular ultramoderno porque é assim que as coisas funcionam (Hein?). Não, não mais... O celular é uma via de comunicação direta, com mensagens instantâneas que dinamizam as relações profissionais. Respostas contundentes, necessárias para justificar o consumo desenfreado, mas não valoram o que de fato é imprescindível.

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É indubitável que as utilizações de determinados produtos são essenciais para a manutenção de uma vida em sociedade. Infelizmente, porém, as pessoas deixam-se levar pela sensação única do prazer imediato. Ao comprar, um manto de alívio permeia o ser, como se aquela atitude (independente de qualquer produto, seja alimentício ou tecnológico) trouxesse paz. O problema está na distinção entre o que se deve comprar e o que se pode comprar. Atualmente, não há preocupação com as duas premissas. As pessoas optam por comprar o que não deve, muitas vezes, sem poder (Hein? Isso mesmo).

Há contrapontos óbvios: não se pode medir o grau de importância de certos produtos a uma pessoa. Camisetas de seu time favorito, por exemplo, poderão ter o mesmo valor que sua coleção de porcelana da década de 50. Entretanto, a vontade enlouquecedora de completar a coleção, de homenagear seu time, de comprar objetos simbólicos são pressupostos para uma afirmação de que somos levados ao prazer. Todo ser humano precisa de algo a que se agarrar para constituir-se pleno e o consumo teimoso está começando a ser a primeira opção para todos.

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Não obstante, é algo quase inevitável, pois representa subjetividade. Uma pessoa que caminha pelo shopping quase sempre se depara com uma vitrine que lhe chame a atenção e, caso não tenha condições, logo vai arquitetando uma maneira de conseguir comprar aquele objeto tão almejado. Após compra-lo, a sensação de prazer se esvaia ao perceber que gastou sem poder. Aí está o paradoxo do consumidor atual. Pode-se até fazer analogia com quem estiver em processo de dieta: comi, adorei, mas não devi a. Não há lógico nessa situação, daí a expressão consumismo irracional ou simbólico. As justificativas, a certo ponto, são plausíveis, mas o arrependimento que preenche a pessoa no pós-compra, muitas vezes, é tão grande que usufruir daquele produto deixa de ser um exibicionismo e passa a ser um zelo exorbitante, que retira a sensação de estar utilizando algo... Útil.

Obviamente, há respostas macro para essas ações, relacionadas ao sistema capitalista e etc. Porém, não se nega a realidade que nos envolve, a todos, nesse processo de compra. “Compro, então, por possuir interesse hedônico por trás das minhas justificativas utilitaristas e acredito plenamente que elas são o suficiente para que eu não transpareça a imagem de alienado”. Podemos, portando, começar a frear nosso consumismo teimoso aceitando a premissa citada em uma tentativa que muitos consideram vã, mas que talvez traga a verdade felicidade, que está muito além de prazeres efêmeros. A verdadeira felicidade é não ter que se preocupar com tantos gastos no final do mês e aproveitar melhor os produtos que me são necessários.


Giuliana Murakami Paixão

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