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"A Arte sine qua non de viver"

Giuliana Murakami Paixão

Vivendo e escrevendo...

Diálogo sobre o amor: uma análise de opostos

O que acontece quando duas pessoas de diferentes tendências nas suas maneiras de pensar resolvem conversar sobre o amor?


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Estavam em uma festa como era o de praxe e, como sempre, iniciaram uma calorosa discussão sobre a importância de uma pessoa na vida de outrem.

Ela: o significado de importância excede, e muito, nossos relacionamentos. Está estritamente ligada à gratidão.

Ele: isso é bom enquanto a pessoa está entre nós. Mas depois vai embora e fica difícil se acostumar com a ausência. Por isso sou adepto da teoria de que você deve desvalorizar a pessoa a partir de agora... Fica mais ágil, prático e eficiente se acostumar com a falta dela.

Ela: mas lá levou em consideração a questão do arrependimento? Quando vocês despreza a pessoa ao lado, é capaz de você mesmo se culpar por não ter aproveitado-a mais. E depois saber que já não estará contigo, deve ser um sentimento de desconsolo muito grande.

Ele: lógico que não me arrependo, minha cara.

Ela: você diz isso agora!

Ele: é por isso que não me arrisco a amar alguém. Prefiro pensar que ninguém é capaz de amar.

Ela: sabe o que penso do amor, meu caro? *tom jocoso*

Ele: o quê?

Ela: antes eu considerava que amor era um sentimento egoísta, típico do ser humano. Achava que amar era simplesmente porque você se sentia bem amado ou amando.

Ele: perfeitamente!

Ela: mas vejo hoje que o amor, irrevogavelmente indefinível, pode ser interpretado e não explicado.

Ele: você está claramente apaixonada. É suspeita para falar sobre o assunto.

Ela: isso faz de mim, logicamente, uma pessoa apta a falar sobe amor porque estou amando. Isto é lógico, enquanto você nada pode dizer se não está sentindo. Certas coisas não podem ser analisadas a priori.

Ele: não posso conversar com você sobre sentimentos. Sou um físico agnóstico racional! Sou capaz de dizer "eu te amo" sem amar.

Ela: não há relação direta entre sua profissão, religião e tendência epistemológico e seus sentimentos. E, afinal, todos nós somos capazes de dizer "eu te amo" sem sentir.

Ele: e isso faz de "todos nós" pessoas más?

Ela: amor, em certa medida, é sentimento ilusório para o ser humano *ignorou-o completamente*. Uma criança diz "eu te amo" para mãe porque quer ganhar um brinquedo. Não significa que ele é mau, pois naquele momento ele não amou. Naquele estado ele somente queria alcançar seu objetivo que era o brinquedo. Não significa dizer também que em outro momento ele não possa amar.

Ele: então você é relativista quanto a isso?

Ela: em dada medida, sim.

Ele: você acredita que ama seus pais?

Ela: sim!

Ele: mas o amor é ilusório. Então você admite que está sendo iludida?

Ela: nesse momento eu sinto que os amo. E mesmo se eu não sentisse, era EU quem estava iludindo, correto? O que você sente por mim?

Ele: amizade, afeição... Só.

Ela: e o amor deriva de onde?

Silêncio

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Ela: no final, acabamos não definindo o amor viu?

Ele: podes definir baseando-se no que sentes.

Ela: porque conceitos são subjetivos!

Ele: existe desejo e só. Mentimos durantes anos para satisfazermos a ideia de felicidade no amor eterno. Amor é uma invenção maluca do século XIX. O homem ama porque quer algo em troca. A velha história do valor de troca pelo produto almejado.

Ela: tudo se baseia em egoísmo para você? Da mesma forma que eu pensava antes?

Ele: compreenda-me! Não posso entender um sentimento insubstituível sem aplicação matemática. Tudo se renova! Se eu amo alguém e essa pessoa some, vale frisar que haverá outra.

Ela: tem razão! Ele é um existente inexistente. O que é existir para você?

Ele: existir é ocupar um lugar em um espaço quadridimensional no espaço-tempo que pode ser quantizado, medido e calculado.

Ela: os pensamentos existem?

Ele: sim! São medidos, situados em lugares específicos do cérebro.

Ela: se existem, me diga, ambas as partes que envolvem o pensamento existem?

Ele: pensamento é fruto de atividades cerebrais então, lógico que sim!

Ela: mas quem comanda é o ser pensante. Se o ser pensante existe, pelo menos no conceito de existência dado por você, então o pensado existe. Existe para o pensante!

Ele: exato!

Ela: portanto, se penso que o amor existe, então ele existe para mim.

Ele: em seu cérebro, mas não no mundo físico. O ser humano não é um ser social, logo tudo está vinculado a desejos primitivos.

Ela: você falou a maior imbecilidade de sua vida. Como podes provar, empiricamente, que o ser humano não é social se toda a história da evolução humana se baseia no momento em que os homens constituíram uma sociedade em prol de um objetivo em comum?

Ele: desejos individuais, primitivos!

Ela: desejos que se tornam coletivos.

Ele: você cita teóricos do estado do bem comum social! Leve em consideração o subconsciente que é a verdadeira realidade psíquica. Nela habitam desejos suprimidos pelo consciente.

Ela: você não é adepto de algo seu e sim de Freud!

Ele: e você cita milhares de pensadores sem sequer mencioná-los.

Ela: é... No final quem está certo são os outros e não nós mesmos.

Risos

Ele: somos opostos! Isso sim não vai mudar.

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Silêncio. A festa termina e os últimos convidados estão a sair, inclusive os dois, acirrados, teóricos.

Ela: falando em amor... Já leu O Banquete?


Giuliana Murakami Paixão

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