escrever com a luz

sobre poéticas e estéticas

Anna Carvalho

Pesquisadora, indecisa, tia da Luisa, turista e fotógrafa.

Joan Fontcuberta e a fotografia ficcional de "Sputnik"

Joan Fontcuberta (Barcelona, Espanha, 1955) é fotógrafo, escritor, crítico, curador, professor da Faculdade de Comunicação Audiovisual da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, e professor convidado de outras instituições, entre elas Harvard. Além da docência, atua nas áreas de Jornalismo e Publicidade. É considerado um dos principais pensadores da fotografia e possui livros especializados em arte e imagem, além de sua obra imagética ser reconhecida internacionalmente e fazer parte de acervos de museus e instituições importantes. Em sua obra "Sputnik" ele coloca em xeque a fotografia encarada somente como registro documental.


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"O astronauta soviético Ivan Istochnikov desapareceu no decorrer de uma missão durante a corrida espacial e 'desapareceu' também de qualquer documento que possa provar sua existência. O corpo perdido no céu tem a sua memória extraviada da terra. A imagem se esvanece, a história é reescrita ao capricho de discursos políticos. O segredo do Estado com a desculpa da desinformação e a propaganda. As mentiras do poder, o poder das mentiras".

Com essa citação, Joan Fontcuberta sintetiza a ideia principal da obra Sputnik: um conjunto de imagens fotográficas “provando” a existência de um astronauta e a manipulação soviética das fotografias em que o mesmo aparece. A ideia se aproxima da técnica de forjar imagens de modo a esconder traços históricos e alterar documentos, cujo caso mais famoso foi o utilizado pelo ditador Josef Stálin para desaparecer com Leon Trótsky e outras pessoas das fotografias na época da Revolução Russa.

Fontcuberta propõe um tema científico e documental sobre a história de um astronauta soviético que morre em um acidente na época da corrida espacial. A exposição se concentra na concepção de que os russos encobriram a existência desse astronauta para que os norte-americanos não descobrissem a morte e, assim, não percebessem a fraqueza tecnológica da antiga União Soviética.

O fotógrafo cria todo o contexto expositivo em que as fotografias não são necessariamente as protagonistas. Ele se utiliza de diversos objetos e documentos que tornam as imagens passíveis de serem acreditadas com a credibilidade de um documento histórico intocado. A obra de Fontcuberta se torna crível ao mesmo tempo em que se transforma em uma expressão artística, na qual a base da interpretação surge das imagens duvidosamente documentais.

A dúvida parte das características das imagens fotográficas, já que o dito astronauta é, na verdade, a imagem do próprio autor, Fontcuberta. Ele insere seu rosto em diversas fotografias de época (Figura 1) e produz montagens imagéticas que estimulam a nossa imaginação e a nossa concepção do irreal. Para começar a brincadeira, o nome do astronauta, Ivan Istochnikov, é uma tradução literal de Joan Fontcuberta para o russo, segundo o autor.

sputnik_figura1.png Figura 1

As fotografias são manipuladas digitalmente, como afirma o fotógrafo em uma conferência na Espanha, e muitas delas são claramente fotomontagens. Como a fotografia do astronauta com um cachorro em órbita (Figura 2) e a imagem onde uma garrafa de vodka passeia pelo espaço com uma mensagem dentro (Figura 3), visualidades estas que se tornam duvidosas, mas que se apoiam em imagens que parecem representar fielmente um documento (Figura 4):

sputnik_figura2.png Figura 2

Sem Título3.png Figura 3

sputnik_figura4.png Figura 4

Entretanto, em uma conferência espanhola, o fotógrafo esclarece que a fotografia da Lua vista do asteroide Kadok (Figura 4) foi na verdade composta com a utilização de batatas, representando a completa desconstrução da imagem ao fabricar uma fotografia que, supostamente, representa um documento. A interferência proposta pelo fotógrafo busca nas fotografias manipuladas da antiga União Soviética, onde o então ditador Josef Stálin retirava algumas pessoas das fotografias. Na figura 6 vemos uma suposta fotografia manipulada e na figura 7, a descoberta histórica do fotógrafo, com a inserção de uma imagem sua como representação do astronauta desaparecido.

sputnik_figura5.png Figura 5

sputnik_figura6.png Figura 6

As imagens apresentadas por Fontcuberta pertencem ao imaginário histórico, pois em sua aparência representam um documento. Nas duas últimas fotografias, os atores sociais estão alinhados em uma pose, que como elemento social da imagem exalta um sentimento de dignidade e mitifica a honra e o momento exato que define o ato-fotográfico para qualquer situação, pois determina a relação entre os atores sociais e diz sobre qual deles é mais privilegiado e qual não o é. Porém, nas imagens apresentadas pelo fotógrafo catalão, os personagens estão organizados de forma simétrica e possuem as mesmas vestimentas provando que não existe uma hierarquia explícita entre as funções sociais de cada um. Quando Fontcuberta se insere na imagem (figura 7) o seu olhar é lançado diretamente para o espectador em tom sarcástico. Ele está perceptivelmente atrás dos outros personagens o que causa certa desconfiança, pois pela pose e pela vestimenta ele parece pertencer ao mesmo nível hierárquico dos outros personagens.

As fotografias são em tons de preto e branco o que complementa o artifício documental que, sem dúvida, valoriza mais a função temporal da imagem e esta característica é essencial para a brincadeira do fotógrafo. A linguagem, ou seja, a estética acaba aparecendo nas imagens de Fontcuberta como um artifício para passar a impressão de realismo. As cores, a composição, a mensagem documental se torna uma prova e por isso convence, fazendo a mensagem de Fontcuberta funcionar.

As imagens possuem uma relação com a representação do registro e, portanto, tem a pretensão de serem objetivamente documentais. Dessa forma, através do jogo manipulativo de Fontcuberta, questões referentes à verdade, à manipulação fotográfica e à transformação de fotografias documentais em manifestação artística são levantadas. A interferência de Fontcuberta funciona como dispositivo de desconfiança e coloca em xeque a fidedignidade dessas imagens. As figuras podem inicialmente ser enquadradas no período histórico da Guerra Fria, porém após serem resignificadas e colocadas em uma exposição, elas começam a participar do momento contemporâneo de produção de imagens. Elas se relacionam pela manipulação de Fontcuberta pois uma desmente a outra. Dessa forma, o fotógrafo traz questões inquietantes: se ele pode alterar imagens supostamente documentais, porque todas as outras imagens não podem ser alteradas? Porque não descofiar de todas as imagens?

O fotógrafo em Sputnik permite o processo de manipulação e resignificação de forma aberta, o que não acontece com todas as fotografias que nos cercam. Isso nos leva ao outro aspecto relevante: a reapropriação e a resignificação das fotografias. De certa forma, Fontcuberta tira a imagem do seu contexto histórico e social e a coloca em contato com uma manifestação criativa e com a noção de desconstrução. A fotografia que outrora tivera um contato maior com a realidade é despreendida e se torna uma provocação, se torna irreal, se torna imaginação.


Anna Carvalho

Pesquisadora, indecisa, tia da Luisa, turista e fotógrafa..
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