escrever com a luz

sobre poéticas e estéticas

Anna Carvalho

Pesquisadora, indecisa, tia da Luisa, turista e fotógrafa.

Irina Werning e O Documento Artístico

Irina Werning mostra a ambiguidade existente entre a fotografia documental e a criação artística em seu trabalho chamado "Back to the Future". O que representa uma nova maneira de encarar a fotografia como arte a partir do suporte documental.


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A fotografia é tida por muitos como um registro do real e, por isso, funciona como um documento. Esse tipo de concepção define uma das funções sociais da fotografia, onde a prática fotográfica possui inúmeras regras e convenções que abrangem desde a composição até o tipo de lugares onde as pessoas são fotografadas. Por isso é possível sustentar a ideia de que a fotografia possui uma função social e, somente assim, ela é significada e se torna necessária ao entendimento de um grupo, já que satisfaz a sua necessidade de representação.

Mesmo assim, existe uma relação ambígua da fotografia entendida como documento e entendida como representação, pois dentro de uma imagem existem realidades e ficções que permitem a manipulação como suporte para a expressão artística. O reconhecimento da fotografia como documentação, em que a sua natureza é relacionada à credibilidade e ao testemunho, se deve ao fato de que muitos receptores enxergam na fotografia a imparcialidade resultante da sua condição de registro do real, atendo-se somente aos aspectos que se relacionam à objetividade e ignorando a condição irreal da imagem. O que faz com que a fotografia seja usada como uma arma poderosa por diversos fotógrafos para criação de novas categorias de imagem.

A definição social da fotografia, atende a normas estéticas que correspondem a um realismo representado tendendo, em muitos casos, à visão social objetiva do mundo. Porém, a verdade é uma característica não exclusiva da imagem fotográfica, pois ela não possui somente uma condição mimética e é extremamente subjetiva. A sociedade enxerga na fotografia a objetividade porque lhe atribui uma função social que a separa de uma estética artística e a eqüivale a um documento, um registro de momentos que merecem ser fotografados.

Os trabalhos “Back to the Future” e “Back to the Future 2” de Irina Werning brincam com a ambiguidade da fotografia, ora tida como documento, ora tida como expressão artística, como podemos ver nas imagens abaixo.

10_back11.jpgPancho 1983 & 2010, Buenos Aires 10_back13.jpgFer 1970 & 2010 Buenos Aires 10_back18.jpgCecile 1987 & 2010 France 10_back113.jpgLulu Geraldine 1980 & 2010 Bs Aires 10_back116.jpgMarita y Coty 1977 & 2010 Bs Aires 10_back125.jpgMy Parents 1970 & 2010 Buenos Aires

Ao reutilizar uma imagem documental e pessoal, Irina Werning, resignifica a imagem de modo a trazer novas interpretações e dessa forma consegue transcender a noção documental da fotografia. A função social deixa de ser a de registro e passa a ser impulsionadora de uma criação artística.

Nessas fotografias são exaltados diversos processos cognitivos que possuem elementos identitários, memoriais e imaginativos onde a percepção não termina somente na observação das fotografias, mas sim na relação entre elas, na relação delas com as outras imagens e como as representações simbólicas atuam em diferentes contextos espaciais e temporais.

Desse modo, uma fotografia pode ser objeto de estudo de várias áreas, pois ela constitui um documento, histórico ou não, mas também pode constituir uma expressão artística e documental. Ou seja, a finalidade da produção faz com que qualquer fotografia possua um valor iconográfico, documental, mas não implica que não haja valores artísticos. Irina Werning ao brincar com a linguagem documental transforma uma imagem tida como registro em uma nova experiência estética, onde a linguagem é fecundante de novas percepções e resignificações.


Anna Carvalho

Pesquisadora, indecisa, tia da Luisa, turista e fotógrafa..
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