escrever com a luz

sobre poéticas e estéticas

Anna Carvalho

Pesquisadora, indecisa, tia da Luisa, turista e fotógrafa.

As fotografias aéreas de Cássio Vasconcellos como expressão artística contemporânea

Cássio Vasconcellos nasceu em São Paulo em 29 de setembro de 1965 e, desde que iniciou sua carreira como fotógrafo, seus trabalhos foram sempre voltados para o lado artístico da produção de imagens. O que fez com que suas fotos percorressem diversos museus e exposições do mundo inteiro, proporcionando para o artista um reconhecimento de trabalho autoral e diversos prêmios.


Grande parte das fotografias produzidas atualmente possui enorme valor imagético, jornalístico e artístico. Sendo que a evolução tecnológica e a influência das artes plásticas proporcionaram às fotografias o caráter de obra de arte, trazendo para elas a marca da autoria e, conseqüentemente, as colocassem dentro dos estudos de arte contemporânea.

O caráter contemporâneo das imagens de Cássio Vasconcellos se reflete tanto no modo como as fotografias são tiradas, como no modo em que são expostas. Seu site, por exemplo, é um portal carregado de portfólios e vídeos que mostram a versatilidade da fotografia de Vasconcellos, que se preocupa não somente com as imagens, mas também com a construção do espaço expositivo, que pode ser tanto museus e exposições convencionais, quanto o próprio site.

No site podemos encontrar parte de seu portfólio produzido sob o nome de "Aéreas". Cássio é especialista em fotografias aéreas e, por ser piloto comercial de helicóptero e fotógrafo que utiliza equipamentos especializados (estabilizador giroscópio, para anular as vibrações do vôo), Vasconcellos consegue definir as possibilidades para cada foto e criar uma polifonia imagética.

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A saturação visual dessa imagem a primeiro momento, se não soubéssemos que se trata de uma visão aérea e nem o seu título, causaria certa confusão mental. Primeiro porque parece um amontoado de quadrados, que sugerem ladrilhos, uma escada, um recorte de um mosaico, dentre outros.

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O processo fotográfico utilizado nessa série (e em outras séries também) por Vasconcellos consiste em buscar uma nova visão além daquela cotidiana e saturada que estamos acostumados, através de fragmentações. Partindo desse pressuposto, ele oferece “distúrbios” informacionais que produz diversas experiências. Porém, após termos contato com o título da fotografia, ela se torna quase completamente limpa e conclusiva.

Estas imagens fotográficas representam recortes pelos quais não é possível entender exatamente do que se trata apenas visualmente. O texto/título que acompanha é um signo que nos remete a outra imagem mental e, com ajuda de fotografias como a anterior, ao seu significado (até porque não estamos acostumados a ver Salinas e o Atacama sempre “de cima”). O texto/título também pode ser entendido como “forma” já que se move como uma estrutura sintática, tornando a informação visual receptível e entendível para os espectadores mais atentos.

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Fotografias como a anterior possuem um caráter antropológico, já que a visão consiste numa tradução de um sentido para outro, mas carrega distorções que tornam a interpretação pessoal dependente de cada observador, ou seja, o filtro social que uma cultura impõe ao seu indivíduo espectador. Não serão todos os que mesmo vendo a foto e lendo o texto/título entenderão ou terão uma imagem de prontidão em suas mentes para estabelecer uma relação de semelhança. Isso ocorre além da qualidade fotográfica. Por isso, é possível pensar que a fotografia acima é de qualquer grande cidade.

A partir da cognição prévia, qualquer indivíduo ao ver a imagem de Vasconcellos tentará relaciona-la com algo que já lhe é conhecido, se assim não for, não haverá reconhecimento e, logo, a informação fotográfica não será homogeneamente passada. A sensação de "ineditismo" é algo primordial para o trabalho de Vasconcellos, pois ela ajuda na formação da experiência estética.

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Portanto, por ter conhecimentos técnicos, Vasconcellos consegue inovar e propor a diversos espectadores visões peculiares que dependerão não somente da qualidade fotográfica, mas da interpretação pessoal de cada espectador. Ou seja, todas as informações que a fotografia deseja pretensiosamente passar não serão absorvidas de forma única.

A informação não-verbal proposta na fotografia aérea de Vasconcellos demonstra a implosão informacional da qual já tratamos anteriormente: a imagem fotográfica é vítima de distorções e distúrbios que dependem principalmente do observador e sua análise interpretativa. Sendo assim como toda a arte contemporânea.

Mais fotografias do "Aéreas" e do Cássio Vasconcellos podem ser vistas no site no fotógrafo.

Anna Carvalho

Pesquisadora, indecisa, tia da Luisa, turista e fotógrafa..
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