escrever com a luz

sobre poéticas e estéticas

Anna Carvalho

Pesquisadora, indecisa, tia da Luisa, turista e fotógrafa.

A Fotografia de choque em forma de retrato

O artigo a seguir trata da fotografia ganhadora do prêmio World Press Photo de 2010, o retrato da jovem Bibi Aisha desfigurada pelo próprio marido. A fotografia registrada pela sul-africana Jodi Bieber, nos choca, principalmente pelo olhar da retratada. Bibi Aisha encara a câmera e nos deixa inquietos. Mas esse tipo de imagem pode causar reflexão, apesar do choque?


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O retrato de Bibi Aisha à primeira vista é um exemplo da imagem da dor e da violência onde o espectador não acostumado a imagens como essa, sente compaixão, antes mesmo de analisar a imagem como representação. Há uma perspectiva de análise e não de julgamento e, logo, ela se torna evocativa, já que existe uma memória relacionada com a experiência com a qual a fotografia quer se referir. Isso ocorre mesmo com a encenação presente no retrato, a câmera determina o posicionamento da pessoa retratada e através da encenação é construído o olhar. Nesse caso, mesmo que subjetivamente, se trata de um olhar sobre a "realidade"?

Pensando na ideia de realidade, a fotografia tenta propor a reflexão do espectador, mas essa imagem é um pensamento visual, com traço ideológico e crítica social? O tom da fotografia é afetivo e passional, mas está inserido sem dúvida numa relação de poder. Ao expor a fotografia de uma jovem afegã no mundo ocidental imediatamente pensamos com nossos óculos sociais e ela se torna uma imagem pornográfica, o que é problemático. O retrato, apesar de encenado, está num nível de intimidade que nos incomoda. É um ato de traição mostrar uma mulher muçulmana desse jeito. Um tabu.

É o choque que estabelece esse dualismo na interpretação da imagem. Apesar da espetacularização de imagens do mundo contemporâneo, onde a representação sai da esfera do comum e se torna banalizada, ainda podemos perguntar: como fotografar o sofrimento? A dor?

Tudo depende da recepção. Uma fotografia que tem a intenção de retratar a dor, o horror, só nos afeta porque a olhamos no seio da nossa liberdade. A distância geográfica permite isso. Não basta significar o horrível para que o sintamos, deve-se acrescentar à leitura do signo uma espécie de desafio perturbador. Deve-se prender a imagem às superfícies do espetáculo, à resistência ótica e não imediatamente ao seu significado. O que se mantém não é mais a imagem e sim a mensagem. O horror instiga porque se repete no cotidiano e vira hábito, se torna convincente e acaba se naturalizando, constituindo o senso comum.

A mídia é um aparato fabril, espetacular, autoproclamadora de uma mesma estética. Por isso, se torna autoritária e convincente. A história do século XX é permeada pela memória que é uma operação afetiva e pressupõe um sistema de escolhas e, portanto, elementos adormecidos que podem ser acordados. Pensando nisso, o documento que é visual nos atrai porque na mídia é um ato político, mas na memória é hierárquico. A imagem é o lugar da memória, tem significado simbólico e político, daí vem o grau de comunicabilidade.

A imagem de Bibi Aisha desperta diversas discussões acerca de sua reprodução em um mundo ocidental cheio de valores e morais que desqualificam o ato do qual fez de Bibi uma refugiada. Existe crueldade, não podemos negar. Mas até que momento nossos esforços de ver a imagem, se chocar e fazer pensar que existem centenas de mulheres que já passaram e passam por condições semelhantes, vai realmente contribuir para o desaparecimento da degradação humana? Nesse retrato, podemos ver um desejo de reparação e ressentimento, sob os quais nos provoca reflexão somente na superficialidade. O desejo de reparação está vinculada com a lei, com a ideia de punição e, portanto, passa pela reparação. Sendo assim, vem se tornando um dispositivo político que é muito utilizado pelos meios de comunicação em massa e principalmente em imagens fotojornalísticas que possuem um traço do real como mecanismo de espetacularização.

Para mim, a fotografia de choque significa na superficialidade. Um retrato como o da menina afegã de Steve McCurry me toca mais do que o choque explícito da outra menina afegã. No entanto, os dois retratos ainda representam o distanciamento de dois mundos, aquele que se utiliza das fotografias de choque para criar o espetáculo e aquele que vive o choque no cotidiano.

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Anna Carvalho

Pesquisadora, indecisa, tia da Luisa, turista e fotógrafa..
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