escrever com a luz

sobre poéticas e estéticas

Anna Carvalho

Pesquisadora, indecisa, tia da Luisa, turista e fotógrafa.

Uma história narrada por fotografias: The Julie Project

A fotógrafa Darcy Padilla acompanhou por 18 anos a história de Julie Baired, que envolvia diferentes lares, pobreza, AIDS, filhos, abuso de drogas e diferentes relacionamentos através, principalmente, de fotografias. É uma história de abandono e uma tentativa de resgatar o Outro, que muitas vezes possui histórias complexas, mas que parecem invisíveis aos olhares cotidianos.


julie_004.jpeg©Darcy Padilla

A fotógrafa Darcy Padilla conheceu Julie Baired quando ela tinha 18 anos num hotel. Uma mulher que, apesar da idade, já tinha vivido emoções complexas. Já carregava um bebê no colo e vivia com o seu marido, Jack, que havia lhe passado AIDS. Sua mãe era alcoolatra e ela relata ter sido abusada pelo seu padastro quando tinha 6 anos de idade. Havia fugido de casa aos 14 anos e aos 15 já era viciada em drogas.

julie_002.jpeg ©Darcy Padilla

Alguns afirmam que o que há de horror na fotografia não é seu conteúdo e sim o ato de vê-la. O que nos mostra que a imagem sensacionalista e de impacto é facilmente transformada em clichê e então, se torna ineficaz, pois perde o sentido de choque e se transforma em “mais uma”. A sociedade contemporânea acaba condicionada a contemplar a dor dos outros pela imprensa e as imagens surgem com célebre velocidade sob seus olhos. Dessa forma, as pessoas não conseguem ter impressões mais aprofundadas sobre as fotografias, pois somente vêem imagens fantásticas que se repetem, entorpecem as mentes, emudecem, e nos faz sentir alheios a dor dos outros.

Então como contar uma história que se inicia com complexas e revoltantes emoções como a de Julie Baired? Darcy Padilla escolhe a fotografia como método de reconhecimento para dar visibilidade a quem, até então, não sentia ter.

julie_008.jpeg©Darcy Padilla

Se revisarmos a história do fotodocumentarismo e do fotojornalismo percebe-se que com o tempo e a prática de vários fotógrafos e editores foi-se fundamentando uma rotina valorativa para a cobertura de catástrofes humanas. Para essa exploração da dor alheia busca-se a foto-choque, que é atualmente um elemento constante na mass media já que, a partir de exigências no mercado das notícias, a tragédia explícita torna-se parte dos critérios de noticiabilidade. A possibilidade de “ver” a dor alheia pode, portanto, consistir na espetacularização da imagem e na consequente crença de que aquilo é o real, apesar de ser espetacularizado. Nas fotografias “reais” o Outro, a dor, etc, são fabricados e sustentados pela mídia de massa. Essas imagens são consagradas no fotojornalismo e no fotodocumentarismo.

Por isso, podemos pensar que narrar através de fotografias uma história como a de Julie é algo perigoso, pois pode-se passar a impressão de que estamos nos aproveitando do sofrimento alheio e o transformando em um espetáculo, como explicamos anteriormente. No entanto, a fotógrafa deixa bem claro que esse projeto se tratava de um trabalho autoral, com a intenção de transformar a vida de Julie Baired numa história fotográfica e com o cuidado de mostrar as idiossincrasias que a vida de Julie teve. No site do projeto percebemos a tentativa de expor a vida de Julie de forma moderada e sensível. Podemos perceber a relação íntima que o projeto causou entre a fotógrafa e Julie e como Darcy lidava com as dificuldades da retratada.

julie_060.jpeg©Darcy Padilla

A sensibilidade é algo presente o tempo inteiro, principalmente porque estamos lidando com o íntimo. A narrativa fotográfica é completada por textos descritivos, transcrições de telefonemas, documentos e áudios. Tudo de modo a criar no espectador um pouco da sensação de se lidar com uma situação tão delicada e que pode passar despercebida em nosso cotidiano. Existem, portanto, dois caminhos para reconhecermos o trabalho de Darcy, àquele que ignoramos as concepções expressivas e nos atemos somente ao choque e, àquele onde dar visibilidade à vida de Julie devolve, simbolicamente, liberdade à retratada. Além disso, dá a Julie uma individualidade antes devorada pelos estigmas.

julie_107.jpeg©Darcy Padilla

O sofrimento, o abandono e o vício assombraram a vida de Julie e só foi possível reconhecermos as dificuldades dela por causa da sinceridade aplicada pela fotógrafa Darcy Padilla. Esse projeto é um modelo de reconhecimento e de documentação da vida de uma pessoa que tinha a necessidade de ter a sua história retratada. É um método de denúncia e humanização das pessoas que tiveram as vidas assombradas com a de Julie.

Veja o projeto no site da fotógrafa Darcy Padilla.


Anna Carvalho

Pesquisadora, indecisa, tia da Luisa, turista e fotógrafa..
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