escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

O crooner surfista

Pacific Ocean Blue, a única obra que Dennis Wilson editou em vida, continua a merecer aclamação universal. Eis uma revisitação à música do único dos Beach Boys que realmente era surfista.


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Dennis Wilson sempre foi o menos conhecido dos manos Wilson e o menos proeminente dos Beach Boys. No entanto, era o único verdadeiro surfista de uma banda pivotal na cultura do surf. Este é um dos muitos paradoxos da vida pessoal e musical do baterista dos ícones californianos. Foi o mesmo rapaz sorridente que apresentou Charles Manson ao mundo da música; foi o surfista ideal, apaixonado pelo oceano e que nele mergulhou embriagado pondo termo à vida; foi parte de um conjunto detentor das mais celebradas harmonias vocais e terminou a carreira com a voz devastada por álcool e nicotina. Live fast, die young é um lugar-comum do rock'n'roll. Live like you want, die almost young podia ser a sua adaptação a Dennis Wilson. A única obra que editou a solo mostra que praticava aquilo que pregava: Pacific Ocean Blue, de 1977, é o clássico definitivo nas carreiras a solo dos membros dos Beach Boys, sendo apenas superado pela conclusão magnânima de Smile assinada pelo irmão Brian.

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O que fica quando Pacific Ocean Blue se evapora é a certeza do grande escritor de canções que deixou tanto por deslumbrar. É o disco da Califórnia como Terra Prometida eternamente banhada pelo Sol, do oceano impossivelmente azul, das intermináveis noites de Verão na praia. É igualmente a reflexão de um homem que viveu o paraíso e o inferno dos excessos, de um homem que possui uma relação simbiótica com o mar e que degusta demasiado a vida para a deixar tornar-se sensaborona.

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São canções enormes, as de Pacific Ocean Blue. O título não poderia ser outro para a música aconchegante e luxuriante que lá está guardada. Para trás, muito para trás, estão as pranchas de surf com acne dos Beach Boys. Dennis Wilson senta-se agora ao piano, faz pontual uso de arranjos orquestrais e a sua voz, trôpega mas sentida, torna as canções ainda mais penetrantes. A abertura com River Song mostra desde logo o que nos espera: um início solarengo, vozes a arranhar o gospel e nuvens em forma de piano a cobrirem o sol perto do final. Poucos são os choques frontais com o rock neste disco, ele é mais um efeito colateral que se manifesta em sólidos temas como Friday Night, What's Wrong ou Pacific Ocean Blue. Dreamer é blue-eyed-soul que surge na calada da noite a pedir para nos portarmos mal. Rainbows foi feita para nos aclarar a alma. Mas são as baladas o prato forte deste registo. É nelas que reside o oceano, luminescente em You and I e Thoughts of You, interminável escuridão líquida em Time e no belíssimo Moonshine. Farewell My Friend torna-se arrepiante, sendo que foi a elegia que Wilson escreveu para si próprio e que se fez soar no seu funeral. E o final não poderia ser mais perfeito, com o magnífico End of the Show a ver um gigantesco sol vermelho afundar-se no horizonte e a voz quebrada de Wilson a levantar-se em agradecimento, quando somos nós que temos que agradecer.

Em 2008, Pacific Ocean Blue foi alvo de edição deluxe, que inclui as míticas Bambu Sessions - sessões que dariam origem a um segundo álbum nunca editado, logicamente intitulado Bambu. Este dois em um é absolutamente imprescindível, dado que esta jóia perdida aproxima-se bastante do brilho ofuscante do tesouro que a antecedeu. It's Not Too Late, Cocktails ou Love Surrounds Me cimentam ainda mais a imagem de Dennis Wilson como bardo californiano, o crooner surfista. É bom sentir o Pacífico aqui tão perto e poder contemplá-lo fechando os olhos e abrindo os ouvidos. Aproveitem o Verão enquanto dura.

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José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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