escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Dead Can Dance: Desespero e resolução

Spleen and Ideal foi a obra que definiu a arte dos Dead Can Dance. O disco onde a austeridade gótica foi colorida por uma vasta paleta de sons e que construiu uma ponte musical entre o antigo e o moderno.


508692m-dead-can-dance.jpg

Ao segundo álbum, os australianos Dead Can Dance puseram de lado as guitarras. O acentuado travo gótico foi suavizado pela adopção de um som mais expansivo, assente em instrumentos clássicos e repositório assumido de influências medievais. Em 1985, nada soava como Spleen and Ideal no universo dito pop. O disco foi um dos marcos na implementação da editora 4AD como uma das mais visionárias e marcantes fontes de música alternativa nos anos 80. A imagem austera, o rigor formal das composições e a solenidade cerimonial da atmosfera fizeram de Spleen and Ideal a mais que provável obra definitiva dos Dead Can Dance.

spleen.jpg

Musicalmente, o disco continua a ser um assombro. Uma celebração de dias cinzentos, uma descida em espiral a subterrâneos de melancolia, uma liturgia grave e sombria. Tacteamos as paredes dos túneis escuros à procura da luz que se adivinha para logo se desvanecer. Há uma dualidade omnipresente nesta obra, uma dicotomia entre claro e escuro, conflito e apaziguamento. Baudelaire abre as suas Fleurs du Mal com uma série de poemas condensados como Spleen et Idéal e é óbvia a apropriação do conceito pelos Dead Can Dance. Tal como nos versos do poeta francês, o mundo de Brendan Perry e Lisa Gerrard está afogado num desespero silencioso, num permanente tédio (verdadeiros sentidos do termo spleen). O ideal seria a troca deste mundo sensaborão pelo culto da beleza, pela rejeição do físico abraçando o imaterial.

dead-can-dance-58.jpeg

Neste ponto, Spleen and Ideal pode ser absorvido como um ritual iniciático, uma depuração espiritual. A vastidão widescreen do som eleva-nos e convida igualmente à introspecção. Vejam-se títulos como De Profundis (Out of the Depths of Sorrow) ou Indoctrination (A Design for Living), respectivamente as peças colossais que abrem e fecham o álbum. A atmosfera é severa, quase monástica, e revestida de uma beleza fria como paredes de claustros. Lisa Gerrard dá voz à primeira, na sua clássica vocalização que transcende a linguagem para comunicar emoções intensas. Brandan Perry canta na última, no seu notável misto de estoicismo e sentimento. Entrementes, somos levados em marcha lenta numa travessia etérea, onde as trevas medievais são recuperadas à luz do século XX. O pulsar tenso de Advent, as trompas funestas de The Cardinal Sin e a cadência marcial do magistral Enigma of the Absolute, todas entregues por Perry, carregam letras de pesado existencialismo. Gerrard transforma Circumradiant Dawn, Avatar e Mesmerism em lamentos possantes, cânticos de beleza terrível.

deadcandance.jpg

Autêntica catedral sonora, o segundo disco dos Dead Can Dance mantém o fascínio e o poder de há quase 20 anos. Somente em The Serpent's Egg o duo australiano conseguiria aproximar-se desta força composicional e interpretativa, já com as influências da world music que viriam a marcar a sua sonoridade nos anos mais tardios. Desespero e resolução na busca pela perfeição: eis Spleen and Ideal.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/musica// @destaque, @obvious //José Luis Marques