escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Remédio santo

A música que brotou quando a alma dos Cure se estilhaçou.


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Os Cure sempre resultaram melhor movendo-se por entre as sombras que expostos à luz. Artesã de canções pop enormes e intemporais, a banda de Crawley caracterizou-se igualmente pela bipolaridade. Pela alternância entre rigor negro e surrealismo colorido, entre rarefacções góticas e baforadas de ar fresco. À desolação hardcore de Pornography seguiu-se a pop mergulhada em psicadelismo de The Top. Ao caleidoscópio inconsistente de Wild Mood Swings seguiu-se a neblina monolítica de Bloodflowers. E, emparedado entre duas obras de extrema variedade criativa e alguns tiros ao lado (Kiss Me Kiss Me Kiss Me e Wish) encontra-se o opus maximus do grupo: Disintegration.

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Rezam as crónicas que o líder Robert Smith se encontrava mergulhado em águas depressivas quando o disco veio à tona. Indefinições artísticas, envelhecimento, incompreensão, eis alguns dos fantasmas que Smith invocou para a sua concepção. A desintegração emocional provocada pela confrontação com uma realidade sombria, contrária às expectativas. Disintegration não é um disco para ouvir de ânimo leve, muito menos com os ouvidos. É algo pesadamente sentimental, que se incrusta no coração como pedra preciosa em metal. A música é, invariavelmente, arrastada, escura, aquosa e desavergonhadamente romântica. Insistentemente sublime. Os temas são longos e expansivos, com pontuais excepções, como os celebrados e eternos Lovesong e Lullaby, duas das mais perfeitas e irresistíveis criações dos Cure. Mas é como um todo, de uma ponta à outra, que esta obra de arte deve ser consumida. Do prelúdio à tempestade em tons de psicadelismo cinza de Plainsong à melancolia resignada e crepuscular de Untitled.

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O fim, a ideia de extinção, estão sempre presentes, mais ou menos metafóricos, mas sempre dilacerantes (Pictures of You, Disintegration, Closedown). Prayers For Rain e o monumental The Same Deep Water As You são momentos magistrais de profunda introspecção, tão atmosféricos como intensos. E a depressão torna-se doce no embalo oceânico de música tão onírica. Se Disintegration não fosse um disco dos Cure, provavelmente não teria tido o sucesso massivo que conseguiu. Sucesso que deu azo a uma reedição titânica, composta por quatro discos, em 2010. Mais que merecido e ideal para quem não vive sem esta música, da mais bela e triste alguma vez feita. Um milagre sonoro para melancólicos praticantes.

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José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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