escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Roxy Music: Arte Rock

Os Roxy Music surgiram como um OVNI no panorama artístico de 1972. A imagem extravagante de Bryan Ferry e seus pares e o retro-futurismo das composições tornaram o grupo londrino um ícone da música popular. O segundo álbum, For Your Pleasure, o último com o influente Brian Eno como membro honorário, é tido por muitos como a sua obra mais importante e marcante. Revisitemo-lo, pois o prazer continua a ser todo nosso.


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Em 1972, ano insuflado por odisseias sinfónicas de rock progressivo, irromperam os Roxy Music, destilando canções de 3 minutos como Virginia Plain ou Pyjmarama, decretando um boicote ao supérfluo e recuperando a urgência do momento. Juntamente com o David Bowie de Ziggy Stardust e os T-Rex de Marc Bolan e o seu Electric Warrior, devolveram a lascívia ao rock, desta feita de forma premeditadamente arty, encenada, cinemática. Se o primeiro álbum da banda londrina era um oásis num deserto de solos de guitarra intermináveis e peças que ocupavam o lado inteiro de um disco de vinil, se a própria imagem dos seus membros (do dandy futurista Bryan Ferry ao alien andrógino Brian Eno, passando pelos óculos de mosca de Phil Manzanera) era radicalmente diferente e inovadora para os standards da época, a sua segunda aparição solidificou o pouco que remanescia líquefeito.

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There's a new sensation / A fabulous creation... As duas primeiras estrofes de Do The Strand, tema que abre For Your Pleasure, são indicativas do que se segue. O disco de 1973 pode bem ser a criação mais fabulosa dos Roxy Music, aquela que encontra o grupo no pico dos seus poderes. Onde o classicismo melódico e requintado de Ferry se cruza na perfeição com o experimentalismo vanguardista de Eno. Supostamente, Do The Strand pretende ser um incentivo à dança com o mesmo nome. Uma dança desconhecida, sob um ritmo enérgico e uma letra críptica, debitada incansavelmente. Um clássico hoje, mas uma bizarria no panorama musical de 1973.

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A mesma mistura de familiaridade e estranheza percorre o álbum, flagrantemente acessível mas distorcidamente maquilhado. É inegável a afinidade com o krautrock, mais especificamente os Can, no longo épico minimal e hipnótico The Bogus Man. A beleza fugaz da juventude e o estrelato efémero de Beauty Queen. A decadência crepitante do genial In Every Dream Home a Heartache, onde um homem que tem tudo ama obsessivamente uma boneca insuflável (Inflatable doll / My roll is to serve you ... I blew up your body / But you blew my mind). Sem um único tema fraco, do frenesim contagiante de Editions of You às difusas sombras existenciais de Strictly Confidential, For Your Pleasure é um dos álbuns de referência da década de 70 do século passado. Há quem chame a esta música excepcional glam rock, há quem lhe chame art rock. Ambas fazem sentido, mas felizmente aqui a arte sobrepõe-se ao glamour. E quando chegamos ao fim, quando o tema-título começa solenemente a circular à nossa volta, qual canção de embalar com electricidade estática na ponta dos dedos, uma estranha calmaria invade-nos e leva-nos para longe. E arroubamo-nos. E deixamo-nos levar pela fantasia. E acreditamos que o rock pode ser arte.

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O conflito de egos entre Eno e Ferry não demoraria a abrir fissuras e o não-músico extravagante e pejado de penas e lantejoulas cedo partiria para uma carreira a solo que moveu montanhas na música como hoje a conhecemos. Ferry prosseguiu a timonar o barco, os Roxy Music continuariam a ser a sua banda e muitos feitos notáveis se seguiram. Mas a sintonia de ideias e a química artística de For Your Pleasure são únicas e irrepetíveis.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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