escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Cantar de Gallo

Vincent Gallo tem tanto de Homem do Renascimento como de autodidacta. A presença desta personagem multifacetada e, amiúde, controversa, faz-se sentir em áreas tão diferenciadas como o cinema, a moda e a música. É Gallo, o músico, o objecto de atenção desta vez. Tão independente e carismático como em tudo o resto que cria e influencia.


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O primeiro disco a solo de Vincent Gallo é um objecto quase inclassificável. Possui uma aura de romantismo negro e claustrofóbico que tanto parece afectar-nos como escarnecer de nós. A música favorece um trip-hop denso e esquelético, mas ecoam ambientes jazzísticos e fumarentos, bem como momentos acústicos e nocturnos. Omnipresente só mesmo a solidão do intérprete, uma solidão impenetrável, quase inconsolável. Mas narcísica.

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When acaba por fazer jus à volatilidade e imprevisibilidade de Vincent Gallo. Artisticamente activo desde finais dos anos 70, o realizador-actor-músico-e-esporadicamente-modelo fez parte de projectos sonoros quase desconhecidos como Bohack ou Gray (este com o artista plástico vanguardista Jean-Michel Basquiat). A música e a pintura foram os seus principais raios de acção nos anos 80, sendo a década seguinte o período que assistiu à evolução de Gallo como actor e realizador. Marcantes são as aparições em filmes como The Funeral de Abel Ferrara e Nénette et Boni de Claire Denis. Em Arizona Dream, película de 1993 dirigida por Emir Kusturica, Gallo revela já os traços de humor surreal e neurose fogosa que o definem sem nunca o reduzirem. Esta cena é particularmente deliciosa...

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O retorno significativo à música acontece no celebrado Buffalo '66, uma obra-prima do cinema independente na qual Gallo é responsável pela banda-sonora original, para além de realizador e actor principal. E, em 2001, surge When. Os motivos que levaram Vincent Gallo a lançar-se a solo musicalmente nesta altura são insondáveis. Como tudo nele, aliás. É dessa forma, misteriosa e intrigante, que a abordagem ao disco deve ser feita. Uma obra estranha e elegíaca, que soa a artesanal, a um negativo musical de Buffalo '66 e que existe apenas porque o seu autor assim o desejou.

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When é um álbum com 10 temas, em que metade são instrumentais. Gallo parece emparedado nos seus próprios fantasmas, confinado a um quarto escuro, exorcizando amantes perdidas. I Wrote This Song for the Girl Paris Hilton e Was projectam uma nostalgia triste e opaca, com loops de sopros e xilofone, nocturnos como jazz. Tudo o resto é esparso, subtil, minimal. Gallo canta com voz andrógina, próxima do Chet Baker mais opiáceo em Honey Bunny, do mais frágil na canção-título. Apple Girl, Laura e Yes I'm Lonely convidam ao isolamento mas suplicam por afecto. It could be so nice... murmura repetidamente a voz nesta última, com a delicadeza de uma canção de embalar, com a inquietude de uma obsessão. Vincent Gallo pode ter feito um disco para ele mesmo, acerca de si mesmo. Mas este é um exercício de narcisismo merecedor de indulgência e louvor, pois o seu criador é realmente único.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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