escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Big Star: Supernova Rock

A história dos Big Star é a de uma estrela que se formou para colapsar prematuramente. Idolatrada pela crítica mas comercialmente mal sucedida, a banda do Tennessee foi-se desintegrando à medida que compunha sólidas melodias. Confunde-se igualmente com a história de Alex Chilton, o génio atormentado que a liderou e que esticou o rock aos seus limites. Third/Sister Lovers, o derradeiro álbum dos Big Star é um dos discos mais emocionais e viscerais de sempre, do qual ninguém regressa ileso. Propõe-se um mergulho na sua escuridão.


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Os Big Star ergueram-se, altaneiros, em 1972 com um magistral álbum de estreia. #1 Record era uma Bíblia de pop rock perfeito. Pleno de composições em estado de graça, de melodias doces mas poderosas e comandado pela voz imaculada de Alex Chilton, o disco estava talhado para o sucesso. Mas os Big Star caíram da sua torre mal estruturada. Reagiram à fraca atenção dispensada a uma obra que continha, entre outros, tesouros como Thirteen e The Ballad of El Goodo, reerguendo-se com Radio City. Este regresso, datado de 1974, é considerado hoje um clássico de um género pouco resiliente: o power pop. Foi igualmente laureado pela crítica e está igualmente cheio de excelentes canções (September Gurls, O My Soul, You Get What You Deserve...). Poucos tornaram a ouvir e a estrela voltou a cair.

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Reduzidos ao duo Alex Chilton / Jody Stephens, os Big Star entraram em implosão. Reuniram-se em estúdio ainda em 1974 para gravar um novo disco, mas as sessões ficaram para sempre assombradas por infernos pessoais, abuso de substâncias e uma espiral de loucura generalizada. Third, paralelamente conhecido como Sister Lovers, acabou por ver a luz do dia somente em 1978, mas a versão editada em 1992 é considerada a definitiva.

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Third / Sister Lovers é um dos discos mais destroçados, penosos e, em última instância, deprimentes de sempre. É música vagabunda, largada na noite escura para nunca mais voltar a casa. E o mais estranho é que ela própria se alimenta deste romantismo trágico e não quer voltar a porto seguro. Há um monte de músicos de sessão a tocar no disco, mas nem uma orquestra nos píncaros da afinação consegue ludibriar a desolação latente e a auto-sabotagem com que o terrorista Alex Chilton mina as suas próprias criações. Se Pigmalião se apaixonou pela estátua que esculpiu, Chilton parece querer destruir tudo aquilo que compôs. Kizza Me, Jesus Christ e Thank You Friends são o que mais se aproxima dos antigos Big Star. Mas a última, especialmente, é exemplificativa do sarcasmo amargo que brota dos temas mais luminosos.

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O mergulho no abismo começa no torpor narcótico de Big Black Car, que tanto pode ser a alegoria de um músico de sucesso transportado na sua limousine como a de um morto transportado num carro funerário e que finalmente encontrou a paz. Sucede-se um ror de temas quase pornográficos na forma como expõem uma alma espancada e ferida de morte. O fantasma demencial de Holocaust nunca deixará de nos acossar nos momentos em que precisamos de algo mais triste que nós. O doce pesadelo de Kangaroo é o trauma de amor que correu mal na nossa adolescência e não mais se dissipou (anos mais tarde foi o primeiro single do projecto This Mortal Coil, que lhe subtraiu desespero e adicionou romantismo). Nightime é a balada de uma relação atormentada. E Take Care, o último tema, aloja-se no nosso coração e derrete qualquer gelo que lá esteja incrustado. Uma canção tão bela quanto frágil, que soa à despedida de alguém que não queremos ver fugir.

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Inconstante e volátil como seria de esperar, a edição definitiva de Third / Sister Lovers conta com um total de 18 temas. Por entre originais e versões, a luz e as trevas, fica para sempre o génio mortificado de Alex Chilton, homem com os anjos na voz mas o Diabo no corpo, cuja errática carreira a solo foi sempre reflexo da entrada neste labirinto sem saída. Chilton faleceu em 2010. A sua voz é tão eterna como os anjos.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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