escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Marianne Faithfull, o anjo caído

Marianne Faithfull surgiu como um anjo na Swinging London dos anos 60. Bela e inocente, perdeu-se no labirinto do estrelato e afundou-se num oceano de excessos. O retrato fiel dessa espiral descendente é Broken English, disco feito de música em carne viva e, para muitos, a obra-prima da cantora britânica. Bem-vindos ao fim do encanto.


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Em 1979, Marianne Faithfull era um anjo caído nos Infernos. Uma diva esfarrapada, imersa em drogas e álcool, a viver num pardieiro londrino sem água quente nem luz eléctrica. Longe iam os tempos do diáfano rosto de menina que cantava As Tears Go By e ostentava Mick Jagger como namorado. Presa nas malhas dos excessos, vagueando de homem para homem (ou de Rolling Stone para Rolling Stone...), Marianne tropeçou e caiu num poço negro e sem fundo. A premente influência sobre Jagger & Richards empalideceu com o passar do tempo e os glamourosos anos 60 deram lugar a uma lúgubre década de 70. Por entre tentativas de suicídio, a crescente espiral do vício e a excomunhão pelo Vaticano, a cantora londrina morreu como fada e ressuscitou como bruxa. Foi neste cenário decadente que surgiu Broken English. Após medianas incursões pela folk e a country, surge esta curva perigosa e acentuada pelos caminhos do punk e da explosão da New Wave.

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Broken English é uma lavagem de roupa suja e uma lavagem da alma. Intenso e cortante, não permite que ninguém saia ileso das suas crónicas dolorosas e amargas. Os efeitos nefastos da religião são visados no elegíaco Guilt, enquanto que Witches' Song remete de imediato para a sua condenação pela Igreja Católica como bruxa. O eterno presente do drogado reflecte-se em What's The Hurry? e o disco punk sombrio do magnífico tema-título inspira-se no terrorismo.

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Marianne Faithfull participou apenas em três das composições do disco, todas elas com a parceria do guitarrista Barry Reynolds. A aposta nas versões é extremamente bem-sucedida em Working Class Hero, de John Lennon, e The Ballad of Lucy Jordan, de Shel Silverstein. A primeira é um gélido retrato da classe trabalhadora, quase gótico na sua austeridade e sempre cortante na sua actualidade. A segunda bifurca-se numa história que tanto pode ser a de uma dona de casa desesperada como a de uma louca suicida e banha-se em electrónica etérea e esparsa. Why d'Ya Do It? leva ao extremo o clima desencantado do álbum. Relato de traição, é o espelho límpido da Marianne endemoniada, cuspindo bílis e rimas vernáculas com uma voz de corvo que outrora foi rouxinol. É a voz de uma mulher num mundo despido de qualquer romantismo. E a desgraça dela foi, uma vez mais, o nosso folguedo.

Marianne Faithfull "Broken English" from Ivan Blatny on Vimeo.


José Luis Marques

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