escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Música de ficção científica

O projecto Oneohtrix Point Never é uma entidade retro-futurista. Revisita a electrónica vintage e conjuga-a à imagética da ficção científica do passado. Rifts concilia os seus três primeiros álbuns e devolve-nos à música cósmica, ausente de gravidade e experimental. À nostalgia de um futuro que nunca existiu.


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Rifts condensa os 3 primeiros álbuns do projecto Oneohtrix Point Never, criação do norte-americano de origem russa Daniel Lopatin. É um disco feito de música incorpórea, que se perde no espaço e ludibria o tempo. As influências óbvias à primeira audição são os primeiros anos de experimentalismo futurista dos Cluster e da electrónica espectral de Klaus Schulze. À medida que se desvela e contorce lentamente, surgem reminiscências de Morton Subotnick e do Brian Eno das ambiências rarefeitas.

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O que fica de Rifts é o monstro que ele é. Em sentido figurado, obviamente. Mais de 2 horas de electrónica planante, sem grandes variações para além das espirais subliminares que se sucedem a cada tema. A música tanto pode invocar auroras estilhaçantes de luz como o mais abismal dos negrumes. As melodias são mais sugestões que materializações e invade-nos uma ausência de gravidade constante ao longo do disco. É interessante saber que parte destas peças foram produzidas em cooperação com o Material Eye Institute, da Academia Russa de Ciências Computorizadas. Talvez advenha daí a sensação intermitente de que estamos a ser transportados pela Soiuz para o lado oculto da Lua.

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Se há temas a realçar na densidade cerebral de Rifts, Betrayed in the Octagon é garantidamente um deles. Sonata electrónica, feita de uma melodia circular, tímida e contida, é a peça onde a influência germânica vintage mais se revela e seduz. Behind the Bank é igualmente um belo e atmosférico exercício, suavemente hipnótico e apaziguador. Learning to Control Myself serpenteia misteriosamente numa ambiência que mimetiza o mestre Robert Fripp para terminar em queda num buraco negro. O cibernético Russian Mind é atravessado por sintetizadores tão frios como a guerra que nunca existiu e debita a solidão da tecnologia há muito obsoleta. A frieza e a solidão de ficção científica transparecem igualmente em Zones Without People, potencial banda-sonora perfeita para as criogenias de Ubik, o famoso romance de Philip K. Dick.

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Num total de 27 temas, a fonte de júbilo é inesgotável para os amantes da electrónica mais difícil de penetrar mas, ao mesmo tempo, mais recompensadora. Electrónica cósmica, sem dúvida, daquela que ainda possui rasgos e musas da magia de outrora. Um disco que dá que pensar, literalmente.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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