escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Popol Vuh: Misticismo musical

Os Popol Vuh foram o projecto da vida de um homem, Florian Fricke, e o veículo da sua arte. Oriundos da primeira vaga de bandas alemãs praticantes de sonoridades electrónicas, cósmicas e ambientais, deixaram-se contagiar por uma aura de misticismo ao terceiro álbum. Hosianna Mantra é uma obra quase sacra na forma como música e espiritualidade se interligam. Um disco de rara e estranha beleza, que pede recolhimento e meditação.


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A essência dos Popol Vuh e a existência de Florian Fricke cruzam-se e facilmente se confundem. A relação é simbiótica. O lendário músico alemão, pioneiro da electrónica, raiou muitas vezes a genialidade nas suas criações. Hosianna Mantra foi um desses momentos, uma obra que rompe drasticamente com o transe electrónico e as fortes vibrações étnicas dos dois primeiros álbuns do projecto.

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Fricke sempre cultivou uma aura mística. Um véu de eremita, reclusivo, raramente exposto às luzes da ribalta. A sua arte reflectiu-o na perfeição. Constantemente transcendental e convidando incessantemente à meditação e ao misticismo, a música dos Popol Vuh sente-se como uma experiência religiosa. E o que se espera de um homem devoto em simultâneo do cristianismo e do hinduísmo revela-se esplendorosamente nesse disco de 1972.

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O mesmo divide-se em duas partes distintas: Hosianna Mantra e Das V. Büch Mose. Na primeira, domina o espaço e a música flui e respira. Os sons apontam para Oriente, esparsos e solenemente belos, evocando rituais de paz e contemplação. Na segunda, sobrevém um rigor mais clássico, mas igualmente meditativo e beatífico - música de câmara para a alma. O gigantesco Moog que dominava os dois primeiros álbuns dos Popol Vuh, Affenstünde e In den Gärten Pharaos, dá lugar a instrumentos orgânicos, como o piano, o violino e uma tambura indiana. Trechos de guitarra eléctrica etérea e flutuante adornam a fabulosa Kyrie; um oboé cristalino eleva ainda mais a perfeição de Abschied.

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A voz celestial da coreana Djong Yun é uma luz dispersa pelo disco, mas particularmente no majestoso tema-título, tira-nos o peso do corpo. É também impossível não mencionar a magnífica Maria (Ave Maria), composição apenas dada a conhecer na reedição do álbum em CD, mas que condensa a intencionalidade do álbum: ser um elo de ligação espiritual e místico entre Ocidente e Oriente, assente na mescla de instrumentos e estilos musicais de ambas as culturas. Florian Fricke não esgotou a sua prodigiosa criatividade precocemente nesta obra-prima. Continuou a tocar-nos com o misticismo e a estranha beleza da sua música até deixar este mundo em 2001. Hosianna Mantra é apenas o ponto de passagem mais delicado, harmonioso e sublime da giesta dos Popol Vuh. E pode muito bem ser o disco mais belo da música alemã dos anos 70.

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José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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