escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

O jazz transcendente de Alice Coltrane

A década de 70 do século passado assistiu à contaminação do jazz pelas mais variadas influências musicais. Mas esta fusão não foi simplesmente sónica. A abertura a elementos étnicos e ao misticismo do Oriente acentuaram a vertente espiritual do género. Dos vários artistas que emergiram neste período, Alice Coltrane foi uma das mais marcantes. Esposa do mestre John Coltrane, construiu uma sólida obra, da qual Ptah, the El Daoud é uma excelente porta de entrada.


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Tornou-se um lugar-comum afirmar que, por trás de um grande homem, existe uma grande mulher. Na maioria dos casos, no entanto, essa mulher permanence na sombra, como uma presença latente e obscura, oráculo que ilumina e orienta, mas nunca é banhada pelo spotlight. O trabalho de Alice Coltrane como compositora e intérprete de jazz sempre foi ofuscado pelo génio e brilhantismo do seu esposo, o gigante John Coltrane.

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Ambas as obras se regem por uma espiritualidade imensa, mas, ao mesmo tempo, por uma dualidade masculina e feminina, pelo yin e yang que faz com que pólos opostos se atraiam. Se John era a força e a energia, a comunicação com o divino pela prostração e pela exaustão, Alice era o misticismo e a clausura, a flor que desabrocha ao sol e se fecha à noite.

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Ptah, the El Daoud, majestoso álbum de 1970, e o seu terceiro a solo, é um disco de revelações. A melodia austera e solene que abre caminho à improvisação em lume brando do tema-título é, desde logo, convite a uma meditação que, para além da exégese, injecta sucessivamente doses de prazer auditivo a quem se deixar levitar. Tomando a levitação como mote, o jazz cósmico, nocturno e nebuloso de Turiya and Ramakrishna, comandado pelo piano dolente de Coltrane e pelo chocalhar tibetano dos sinos, é balsâmico e envolvente.

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Blue Nile faz jus ao nome, com a harpa multicolorida da senhora e as flautas serpenteantes e misteriosas de Pharoah Sanders e Joe Henderson a transportar-nos numa viagem onírica ao longo do Nilo, iluminados por um sol incandescente e opulento. Um jogo de luz e sombras, verdadeiro alimento para a alma... No fim, Mantra, peça que nos arrasta na corrente emotiva dos saxofones tenor de Sanders e Henderson, em duelo e em transe, a espalhar caos como um turíbulo até ao final, onde o círculo se fecha e a união das partes é total.

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Numa altura em que o jazz se voltava para Oriente ou para civilizações arcaicas e para o seu misticismo em busca de inspiração, este disco continua a ser uma experiência única, especialmente pela busca dos intérpretes em alcançar a transcendência através da música e de como algo de realmente espiritual se manifesta a quem mergulha nestas melodias e intrincadas improvisações que escorrem como lava.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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