escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

A loucura consentida dos DEVO

O nome DEVO surgiu de um conceito: "De-evolution". Segundo ele, a espécie humana não estaria em processo de evolução, mas de retrocesso. Esta ideia, satírica e provocatória, reflectiu-se na postura e na imagem deste inesquecível colectivo norte-americano. Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!, o seu disco de estreia, foi um cocktail bizarro de melodia e experimentalismo. A cultura pop nunca mais foi a mesma depois dele.


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O álbum de estreia dos norte-americanos Devo soa a um cruzamento entre o primeiro disco dos Talking Heads e os dois primeiros dos XTC, com a mão sagrada de Brian Eno a segurar o ceptro da produção. As guitarras são angulares, os ritmos frenéticos e sincopados, as vozes nervosas e robóticas. A música parece querer renunciar a toda a sua humanidade, apesar do constante encorajamento à "dança". Como se mexer o corpo ao som desta música fosse pura e simplesmente uma consequência mecânica do estímulo e nunca uma reacção emocional. Q: Are We Not Men? A: We Are Devo! - o título desse disco de 1978 diz tudo.

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O que fez dos Devo radicalmente diferentes da maioria das bandas New Wave americanas, foi a adopção de fardamentos e ornamentos que os fazia parecer um grupo de cientistas de laboratório vítimas da sua própria experiência demencial. Aliado à apetência por um catálogo de referências kitsch, como a ficção-científica americana dos anos 60, e a um humor corrosivo e muito próprio, este estilo tornou-os um dos fenómenos mais visualmente fascinantes da cultura popular. A música não foi tão uniforme como os próprios uniformes e é no primeiro álbum da banda que as melhores ideias despontam mas também se esgotam.

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Q: Are We Not Men? A: We Are Devo! possui hoje o estatuto de clássico. É merecido. Com a inteligência suprema de Brian Eno a preencher o disco de pequenas grandes interjeições e sons palpitantes e originais, a obra soa eternamente fresca e desafiante. Tudo acontece a grande velocidade, os temas são curtos e urgentes, catchy e melódicos de uma forma esquisita. Se há corolários a apontar, serão decerto o espantoso e provocante Mongoloid, tema que ainda possui o condão de fazer vibrar qualquer cérebro inteligente, Jocko Homo e a ciência emperrada do seu ritmo e a versão fracturante e praticamente irreconhecível de (I Can't Get No) Satisfaction dos Rolling Stones.

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Peças mais ortodoxas, mas igualmente excitantes, são o deslizar New Wave das guitarras e do piano em Gut Feeling / (Slap Your Mammy) e a energia quase punk do electrizante Come Back Jonee. Uncontrollable Urge e Sloppy (I Saw My Baby Gettin') são coloquiais e ecos da influência dos supracitados Talking Heads e XTC. Mesmo assim, fazem cair o queixo a qualquer pessoa que não seja surda à inventividade e aprecie em simultâneo abanar o esqueleto. Shrivel Up é o som de Nova Iorque no mais castiço da sua vanguarda, mesmo sendo a banda nada e criada no bem mais conservador Ohio.

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Provavelmente foram sempre mais imagem que substância, mas é certo que o primeiro álbum dos Devo conseguiu uma pequena revolução. Revolucionou a imagem de muitas bandas, imiscuiu a sátira e a crítica social de forma surrealista e subliminar no contexto das canções pop de 3 minutos e aproveitou as fatiotas amarelas e os chapéus saídos de qualquer personagem de um filme de Ed Wood para conseguir projecção nesse símbolo da música massificada que é a MTV. Os videoclips desconcertantes ainda aí estão para, bizarramente, o comprovar.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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