escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

The Boys Next Door, a primeira vida de Nick Cave

Nick Cave irrompeu oficialmente na música com os Boys Next Door. O primeiro e único álbum deste curto projecto é um artefacto curioso para entender as origens artísticas do músico australiano, mas também um disco que continua a ser enérgico e cativante. Uma pegada interessante num trilho feito de excessos e redenções.


01_BoysNextDoor_DM.jpg

Antes do regurgitante negrume gótico dos Birthday Party e muito antes da redenção pelo Espírito Santo de Nick Cave e consequente evangelização dos Bad Seeds, irromperam fugazmente os Boys Next Door. A primeira banda de Nicholas Edward Cave foi formada em meados dos anos 70, em conjunto com o ubíquo companheiro de grande parte da sua carreira, Mick Harvey, começando por ser uma banda de covers Glam e New Wave. A sua identidade própria apenas se afirmou e vincou em finais dessa década, muito em parte devido à entrada do carismático e suavemente cadavérico Rowland S. Howard e da sua distinta guitarra. O apogeu deu-se em 1979, com a edição do único álbum do grupo, o monolítico Door, Door.

Door+Door+PNG.png

À primeira audição parece estarmos perante um mascar e cuspir de influências, dos Stooges aos Roxy Music, dos New York Dolls aos Television; um disco de colegiais sempre a rasgar, feito de urgência adolescente, ritmos frenéticos e melodias contagiantes. Mas há muito que diferencia os Boys Next Door de serem arrepiantemente etiquetados como os Green Day da sua época. Em primeiro lugar, a voz de Nick Cave a dar os primeiros mas seguros passos em direcção ao fundo da caverna, as suas letras já pejadas de uma paranóia insinuante e de uma angústia juvenil, mas, a espaços, dilacerante. Em segundo, a guitarra de Howard, que preenche os temas de uma palpável mas subtil sofisticação que, na sua ausência, seria pálida e magra.

Boys-Next-Door-nick-cave-9094658-624-419.jpg

Os trejeitos verlainianos de After a Fashion e a alta tensão de Somebody's Watching Me ou The Nightwatchman são pontos a reter e que nos retêm. I Mistake Myself é humoradamente tétrica, fria mas ainda longe do ambiente de câmara frigorífica de alguns temas dos futuros Birthday Party. The Voice e, em particular, Friends of My World, são mini-épicos de escassos minutos, punk na intenção, solenes na entrega.

Boys-Next-Door-nick-cave-24646620-500-336.jpg

Curiosamente, o tema que mais se aproxima da estética de Nick Cave actualmente (re)conhecida, foi escrito por Howard, encerra o álbum e intitula-se Shivers. É uma daquelas peças que deveria ser obrigatória por lei em qualquer quarto de adolescente que sofreu o seu primeiro desgosto de amor e está à beira de tomar uma caixa de aspirina regada a cerveja. Ainda hoje perdura como uma balada magistral, perfeitamente construída, em que a guitarra difusa como uma dor indecifrável consegue mesmo arrepiar a espinha.

Boys-Next-Door-with-Rowland-goth.jpg

Toda a gente sabe, ou deveria saber, o que aconteceu a seguir na vida destes rapazes. Nada do que aqui está seria repetido. As coisas tornaram-se progressivamente mais negras, Cave tocou o fundo do abismo com uma agulha no braço, retornou como prova palpável da salvação de Jesus Cristo e, na actualidade, é um dos melhores escritores de canções que o mundo já conheceu. Algumas das mais curiosas, directas e improváveis estão neste disco. Um artefacto nostálgico a estimar.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/musica// @obvious, @obvioushp //José Luis Marques