escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Era di Acquario: Itália progressiva

Estrela rara no firmamento do rock progressivo italiano, pouco ou nada se conhece dos sicilianos Era di Acquario para além do seu único disco - Antologia.
Esta obra de culto é um dos perfeitos exemplos da forma como a Itália dos anos 70 cruzou a energia do rock com a erudição da música clássica. Ainda hoje, um objecto tão belo quanto misterioso.


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1972 foi um ano miraculoso para a música italiana. Com a ascensão do rock progressivo, sinfónico e megalómano em terras britânicas no início dessa década, a Itália parece ter encontrado um filão inesgotável de inspiração e de expressão da sua cultura orgulhosamente clássica e monumentalmente bela. Se as bandas inglesas enveredavam maioritariamente por um imaginário oscilante entre atavismos medievais e profecias espaciais, lendas arturianas e ficção científica polvilhada de ácido, os italianos apanharam a boleia deste balão rock insuflado por música clássica e pompa teatral, adaptaram-no ao seu modus vivendi ancestral e criaram um nicho sem paralelo na música popular do século XX. Haveria, porventura, género musical mais apropriado e que enfatizasse melhor o país do bel-canto, da verde Toscana, da moribunda mas imortal Veneza, da tão mediterrânica Sicília? Ao criarem uma música simultaneamente actual e remota, projectada para o futuro, mas embebida na Itália operática, cortesã e renascentista, inchada de um romantismo impossível de tão ideal e de uma beleza barroca de derreter icebergues, muitas destas bandas setentistas aproximaram o rock do Olimpo e das suas delícias; criaram ambientes de néctar e melodias de ambrósia. Da arca do tesouro, extrai-se hoje uma jóia rara chamada Era di Acquario.

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Trio oriundo de Palermo, editaram, tal como muitas das bandas desta era dourada, somente um álbum, Antologia, no tal ano de 72. Suficiente para seduzir. A abertura com laivos de flamenco de Campagne Siciliane abre caminho a uma flauta sublime que nos acaricia como um vento morno. O tema desenrola-se e leva-nos ao colo pelas aldeias brancas da costa siciliana, apetecendo mergulhar num Mediterrâneo osbcenamente azul. A este idílio segue-se Padre Mio, uma das poucas canções rock do álbum, urgente e carregada de dramatismo vocal, onde a guitarra revolta se entrelaça com a flauta melancólica. O ambiente amaina com a doce Idda, balada cintilante e balsâmica, entregue em voz serena. As três peças seguintes, curtas e instrumentais, são de uma beleza indescritível, que tem tanto de etéreo como de carnal. Solitudine percorre-nos como um pôr-do-sol estival, flamejante mas nostálgico. Vento d' Africa é mais uma melodia cálida e sensual, um convite ao enamoramento e a um copo de Frascatti para aliviar o calor. Monica aus Wien, uma vez mais com a flauta a liderar, exala um romantismo inocente, algo de inatingível por ser tão breve, como cruzarmo-nos fugazmente com uma bela mulher que nos olha nos olhos e se afasta, deixando-nos apenas a impossibilidade do seu corpo e o odor do seu perfume.

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A fantasia termina com L' Indifferenza, canção de protesto em toada folk. Fuori al Sole é mais uma peça rock de belo efeito, ornamentada por uma guitarra que debita solos por entre uma solene mas fresca melodia. A toada eléctrica prossegue com Geraldine e a sua vocalização operática, exemplo vivo do cruzamento entre o groove do rock e as intricadas texturas da música clássica que os italianos fazem como ninguém. Antologia termina com Statale 113, que parece colocar os Byrds ou os Quicksilver Messenger Service a percorrer as estradas verdejantes da Umbria e com a flauta mágica em permanente encanto. No fim, passaram menos de 30 minutos. Tão pouco tempo para tanta beleza e qualidade. É melhor voltar à primeira faixa e apaixonarmo-nos novamente...


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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