escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Tim Buckley: Um olhar sobre uma voz

Tim Buckley foi uma das vozes mais impressionantes do século XX. Um cantor que nunca deixou de ser músico e que toda a vida experimentou as potencialidades que a sua voz alcançava. De baladeiro comovente e poético a explorador temerário, o seu legado é eclético, influente e imortal. My Fleeting House é um filme documental essencial para conhecer o homem, o seu génio e os seus fantasmas.


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Para as gerações mais novas, Tim Buckley fica muitas vezes confinado ao estatuto de pai de Jeff Buckley. O filho, tal como o pai, malogrado prematuramente, deixou-nos Grace, obra-prima que deixava antever glórias maiores mas nunca cumpridas. Um disco que se tornou marcante na existência musical de muito boa gente. O legado de Tim é bastante mais extenso, eclético e exploratório. Começou como bardo folk rock no seu primeiro álbum, adicionando temperos psicadélicos à sua música em registos como Happy Sad e Blue Afternoon. Um progressivo interesse pelo jazz e pela música de vanguarda desenhou o esqueleto de Lorca e Starsailor, as suas obras mais experimentais. E os seus últimos discos voltaram-se para territórios em que a nunca abandonada folk foi exaltada pela soul e pelo funk. Esta derradeira fase é a menos interessante da carreira do músico, se bem que Greetings From L.A. seja um dos seus registos mais celebrados. Tim Buckley viveu uma existência de progressivos excessos. Por ironia do destino, escapou ao Clube dos 27, mas a morte levou-o aos 28 anos, calando uma das mais belas e impressionantes vozes que o mundo conheceu.

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My Fleeting House é o documento visual mais completo dedicado ao músico norte-americano. Feito de interpretações ao vivo de temas que marcaram a sua história e da pontual participação de colaboradores (caso do guitarrista Lee Underwood, presença constante durante toda a carreira de Tim), este documentário de 2007 é um tesouro de arquivos que ajudaram a construir a lenda. As rendições brilhantes de clássicos como Song To The Siren, Dolphins ou Morning Glory enfatizam o génio e a voz única do cantor, uma voz que tanto cantava poesia como era ela própria um instrumento a juntar aos demais, uma entidade abstracta que encantava mesmo sendo ininteligível.

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Se a memória de Jeff Buckley continua muito viva (basta ver a quantidade de doppelgängers de Grace que continuam a ser editados), a de Tim é cíclica, nunca saindo dos escalões do culto. Um génio que deu vida a outro génio, ambos torturados, ambos levados demasiado cedo. Mais que um pai, um genitor de arte.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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