escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

As vidas de Bryan

Bryan Ferry é a epítome da sofisticação e da elegância na música popular. O eterno dandy romântico, torturado pelo amor e com ar de fim de festa. Paralelamente à sua banda de sempre, os Roxy Music, o cantor britânico traçou uma sólida carreira a solo que o tornou uma referência. De todas as suas obras, destaca-se Bête Noire, o mais coeso e interessante dos seus registos.


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A carreira a solo de Bryan Ferry é algo paradoxal. Granjeou-lhe um estável sucesso comercial, mas nem sempre os mimos da crítica. Arriscando progressivamente menos que nos tempos dos Roxy Music, Ferry começou por viver uma vida dupla discográfica para exercer em pleno o seu poder criativo. Não é difícil lembrarmo-nos da outra força motriz dessa banda britânica nos inícios dos anos 70: Brian Eno, personagem excentricamente vestida de penas e lantejoulas, qual extraterrestre que desceu aos humanos para mostrar o futuro do rock. A fricção entre o extremamente arrojado Eno e o mais refreado Ferry durou dois álbuns. Eno acabou por ejectar-se da nave, que continuou um rumo interessante, mas progressivamente polido. Ferry tornou-se o crooner de românticos utópicos, de yuppies com cérebro e de socialistas do champagne.

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No meio de bons momentos e de outros menos inspirados, é difícil apontar um disco de referência do cantor inglês. Parte da sua obra é feita de versões (These Foolish Things, As Time Goes By) e os álbuns de originais nem sempre nos conseguem abarbatar (The Bride Stripped Bare, In Your Mind). Ferry sempre foi um homem de singles, de pontuais grandes canções. Em termos de longa-durações, o ponto mais coeso e próximo da perfeição na sua discografia será, porventura, Bête Noire. Sucessor do celebradíssimo Boys and Girls, este registo de 1987 tem tudo aquilo que procuramos em Ferry (clacissismo, sofisticação e drama q.b.), para além de ser o seu disco mais nocturno e cinemático. Tudo sem perder os característicos elementos enérgicos e dançáveis.

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Kiss and Tell, Limbo e The Right Stuff (esta última a aproveitar-se bem da guitarra de um Johnny Marr ainda fresquinho dos Smiths) entram de imediato para o panteão das canções melhor sucedidas da cartilha ferryana. New Town e Seven Deadly Sins movimentam-se pela noite urbana, que começa com desejos profanos e termina com marcas de batôn no colarinho. O tema-título e Zamba são os melhores momentos do álbum. O primeiro, envolto em inflexões afrancesadas, conjura uma boémia decadente, um filme negro que poderia decorrer em Montmartre. Zamba enfeita-se de negrume atmosférico e vampírico, corrompendo-nos suavemente até nos abandonarmos com ela nas sombras.

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Trabalhos mais recentes de Bryan Ferry, como Frantic ou Olympia, resgataram para a actualidade uma carreira que aparentava ser já um atavismo, trazendo com eles a participação esporádica de velhos cúmplices dos Roxy Music, como Eno ou Phil Manzanera. Ferry continua a ser referência e a merecer reverência. Regressar a Bête Noire é apanhá-lo em flagrante na imagem que ele próprio criou. Estilizada, vintage, requintada.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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