escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Cosmic Jokers: A banda que nunca existiu

Na nebulosa e conturbada história do rock alemão dos anos 70, vulgarmente conhecido como Krautrock, a saga dos Cosmic Jokers é uma das mais inusitadas. Um colectivo de músicos reunidos por um produtor meio louco e que editou discos sem saber que o fazia? Sim, nesta época tudo era possível.


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O agrupamento alemão conhecido como Cosmic Jokers editou cinco álbuns em 1974, sem nunca realmente ter existido. Esta história, incongruente e insólita, merece sempre ser contada. Em 1973, o ex-patrão da editora Öhr, Rolf-Ulrich Kaiser, decidiu congregar a ínclita geração da Kosmische Musik para uma série de sessões de estúdio. Eram eles os Kosmische Kuriere, o poderoso combo que emprestou o seu génio aos discos míticos de Walter Wegmüller, Sergius Golowin e à colaboração entre os Ash Ra Tempel e Timothy Leary. Composta, entre outras, por luminárias como Klaus Schulze e Manuel Göttsching, esta unidade reuniu-se para uma série de jam sessions espaciais e alucinantes, desconhecendo que estava a gravar para a posteridade algumas das peças mais fora de órbita que o rock alguma vez conheceu.

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Rezam as crónicas que Rolf-Ulrich Kaiser aliciou os músicos para o estúdio oferecendo-lhes alucinogéneos gratuitos em troca de improvisos inspirados. Sendo os ácidos motor de arranque para as musas de muitos dos músicos desta era, os mesmos não se fizeram rogados. Após a conclusão do festim, o produtor Dieter Derks tratou de transformar o caos em ordem e a música foi lançada em disco. Meses depois, o guitarrista Manuel Göttsching decidiu ir a uma discoteca de Berlim para ouvir as novidades. Ao ouvir um som novo a transbordar das colunas, perguntou o que era. Ficou a saber que aquela guitarra bluesy, spacey, freaky, que estava a ouvir, era ele mesmo e a sua nova banda: The Cosmic Jokers. E a peixeirada estalou.

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Para além do extravagante Kaiser, a usurpação musical teve o conluio da sua não menos colorida namorada, Gille Lettman. A senhora auto-intitulava-se artisticamente Sternenmädchen, ou Dama das Estrelas. Deu a voz e a cara no último disco da pseudo-banda, Gilles Zeitschiff, construído a partir de gravações pré-feitas e muito provavelmente o primeiro álbum de remisturas da história. E o resto sucedeu-se em catadupa: Processos em tribunal, os discos retirados do circuito e Kaiser e a luz dos seus olhos a fugirem da Alemanha. Felizmente, as gravações foram conservadas e podemos ainda apreciar a fabulosa, inovadora e única sonoridade dos Cosmic Jokers em toda a sua plenitude.

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No que realmente interessa, ou seja, a música, os Cosmic Jokers deixaram um dos legados mais incríveis e extasiantes do rock alemão de setentas. Cada disco, mas especialmente os três primeiros, são obras-primas do psicadelismo cósmico e trippy (como já foi dito, o quinto álbum é um disco de remisturas, sendo o quarto uma espécie de sampler de vários actos que convergem na banda que nunca existiu). São discos quase hardcore na abordagem despudorada feita à música sob a influência de alucinogéneos. Guitarras lânguidas, que parecem projectar a aura dos blues no vácuo do espaço sideral, teclados faiscantes que cortam o negro como raios luminosos, bateria em constante elipse e pontuais vozes femininas que murmuram como sereias no Mar da Tranquilidade.

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Galactic Joke, Cosmic Joy, Kinder des Alls, Galactic Supermarket... Momentos de absoluta rêverie, que invadem e conquistam a mente, deixando o ouvinte num estado de semi-torpor, interrompido por despertares electrónicos e batidas meteóricas. A lei da gravidade não impera aqui, o que reina é um transe contínuo e total, um carrossel imparável que gira a anos-luz deste mundo. É o som de buracos negros, quasares e nebulosas. Verdade ou mito, a história dos Cosmic Jokers é a história de músicos geniais e inventivos, quebrando barreiras, ultrapassando fronteiras e tornando o próprio som uma contínua experiência lisérgica, detentora do poder de alterar consciências. Se o cérebro tivesse um ponto G, esta música titilá-lo-ia com pétalas e vibrações de seda.

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José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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