escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Nelson Ângelo e Joyce - Tropicósmicos

O primeiro e único álbum de Nelson Ângelo e Joyce é uma pérola pouco conhecida da música brasileira. Algures entre o bucólico e o psicadélico, cruza elegantemente sonoridades típicas do Brasil com influências exteriores da sua época. Uma obra digna de descoberta ou revisitação.


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A música brasileira dos anos 70 está recheada de tesouros escondidos e selvas por desbravar. Os frutos do movimento Tropicália pendem, polposos e sumarentos, da frondosa vegetação artística de terras de Vera Cruz. Casos pontuais de génio: A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (Os Mutantes); A Little More Blue (Caetano Veloso); A Tábua de Esmeralda (Jorge Ben); Clube da Esquina (Milton Nascimento e Lô Borges); Paêbirú (Lula Cortês e Zé Ramalho); Gita (Raúl Seixas); Todos os Olhos (Tom Zé). Para além da música, este último merece atenção pela lenda que reveste a vetusta criação da sua icónica capa.

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Nos meandros do colorido matagal desta época, um disco especialmente belo e encantatório é o álbum homónimo de Nelson Ângelo & Joyce, datado de 1972. O nome do duo pode avivar torturas auditivas como Sandy & Júnior ou Chitãozinho & Xororó, mas, afortunadamente, fica por aí. Esta música vem do interior, dos confins húmidos das matas, mas possui igualmente o doce embalo da bossa nova e a transcendência da folk psicadélica. Sobressaem os duetos, etéreos e mornos como a chuva de Verão. Um Gosto de Fruta é particularmente sublime, Comunhão é o sertão em Woodstock. Na toada tendencialmente acústica, o melhor instrumento é a voz de Joyce Moreno, suave e fluida, algures entre Astrud Gilberto e a Joni Mitchell sem nicotina. Hotel Universo é um aveludado sombrio para os nossos ouvidos.

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Composto por canções breves, como raios de sol, como nuvens que passam, Nelson Ângelo & Joyce é evocativo das brisas pacíficas da West Coast, das harmonias vocais de Crosby, Stills & Nash e do psicadelismo eremita, que comunga com a Natureza e volta costas ao betão. Detém o poder do ritmo vintage brasileiro em Tiro Cruzado e arrisca brilhantemente construções mais complexas como o belíssimo Vivo ou Morto. Sete Cachorros, cantado por Nelson Ângelo é uma pequena fatia de paraíso folk tropical, que Nick Drake poderia ter composto numa canoa, no Amazonas. Tudo Começa de Novo encerra o álbum, dolente balada que progride em lenta e ritualística combustão e que poderia ser um tema perdido dos primórdios dos Amon Düul. E é porque tudo começa de novo, que este belo disco pode ser o modo ideal de dizer adeus ao Verão que se aproxima do fim. Com nostalgia, mas sabendo que ele voltará.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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