escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Os monges do rock

Cinco soldados americanos destacados na Alemanha rapam o cabelo como monges e fazem do rock'n'roll a sua doutrina? Eis os Monks, uma das bandas mais singulares da história do rock. Com apenas um álbum editado - Black Monk Time, de 1966 - o grupo conseguiu lançar sementes para alguma da música mais enérgica e beligerante que lhe sucedeu. Do rock de garagem ao movimento punk, todos são seus acólitos.


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Os Monks são uma das bandas mais lendárias e proeminentes do chamado rock de garagem. Com apenas um álbum na sua cartilha, datado de 1966, espalharam culto e influência. O punk não teria acontecido sem eles e os ritmos mecanizados do krautrock germânico também lhes devem a sua quota-parte. Tudo começou na Alemanha em meados dos anos 60, quando cinco militares americanos aí em serviço trocaram as espingardas pelas guitarras. Os cabelos foram cortados ao melhor estilo monástico, batinas começaram a ser envergadas e muitas vezes o quinteto tocava com cordas à volta do pescoço. A música era manifestamente anti-bélica, mas o som era rude e a entrega electrizante. Em Black Monk Time, o seu único testemunho, os Monks deram o seu contributo para a mudança da face do rock. Tornaram-na mais feia e agressiva, crua e desmaquilhada.

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Black Monk Time é um disco imparável. Nem as canções de amor acalmam a intensidade constante. A banda parece tocar música com o sentimento de quem disputa uma batalha. Rigorosos e concisos, os Monks mostram ser uma máquina precisa de tocar rock'n'roll. O que não significa que não haja espaço para emoções. Elas estão à flor da pele, febris e directas e deixam-nos sem fôlego enquanto os monges se entregam à penitência do ritmo. Monk Time é das melhores aberturas de sempre de um disco. Um ataque relâmpago, surpreendente e panfletário. O que lhe sucede é um conjunto variado de experiências roqueiras como nunca se tinha ouvido e que soam poderosíssimas ainda hoje. Todos os membros da banda cantam, a bateria nunca se liberta de um transe endemoniado e o órgão de igreja que assalta os temas é tudo menos litúrgico. Há ainda um banjo eléctrico que arranha melodias de barba rija.

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A fúria dos Monks encerra 12 temas em menos de meia-hora. Black Monk Time tem sido alvo de reedições ao longo dos anos, mas nenhum dos extras por elas oferecidos chega ao nível da primeira dúzia. Assim, deixem marchar sobre vós os fantásticos Shut Up e I Hate You. E deixem-se evangelizar pela espiral frenética de Higgle-Dy-Piggle-Dy e Blast Off! No fim, não há como perguntar onde está a energia das bandas de hoje em dia. Onde está a fúria? Se rock em português significa pedra, então Black Monk Time é a sua pedra filosofal. Para mais informações, é favor visitar o Mosteiro.

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José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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