escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Estados Unidos do Som

United States of America é o nome de um dos colectivos mais vanguardistas da música dos anos 60. Misturando o caleidoscópio do rock psicadélico com uma forte dose de experimentalismo, o grupo de Los Angeles foi responsável por algumas das sonoridades mais revolucionárias da época. Apesar de alguma estranheza e incompreensão na altura da sua edição, o seu único disco é visto hoje em dia como uma obra de culto e pioneirismo.


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Detentores de um dos nomes mais improváveis para uma banda, os United States of America foram um subtil mas terapêutico alfinete na acunpuctura músical dos anos 60. A curta existência do projecto (entre 1967 e 1969) deixou apenas um disco como legado, um registo homónimo cuja redescoberta é não menos que fascinante. Apesar do nome, The United States of America não é uma cartilha de louvaminhices à terra dos livres e lar dos bravos. É um disco de incrível arrojo estético e de crítica social sarcástica e certeira, que continua a manter uma frescura invejável. Concebida e parida sob o sol da Califórnia em 1968, a obra explora, corta e cose estilos tão díspares como o rock psicadélico, o modernismo de Charles Ives e a electrónica embrionária. É essa electrónica, ainda estranha e alieníngena à maior parte dos ouvidos da altura, que se imiscui na música, desfigurando os instrumentos e processando a voz. Uma espécie de samplagem pré-histórica, feita de arcaísmos musicais americanos espreita nalguns temas e o todo é um naco suculento de experimentalismo vanguardista dado a comer ao rock.

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Tome-se o tema de abertura, The American Metaphysical Circus, como exemplo perfeito e súmula do que se segue. A paleta de sons mistura cores improváveis, e o edifício lisérgico é impossível de derrubar. A conquista definitiva dá-se com Hard Coming Love, certamente um dos singles mais marginais de 1968, mas uma canção magnífica. A melodia catchy, intercalada com a bizarria dos efeitos, transforma-a num verdadeiro clássico do futuro. Dorothy Moskowitz, a vocalista, aguenta-se durante todo o disco como o elo de ligação de toda a estranheza envolvente, o eixo à volta do qual um tornado musical serpenteia. Da placidez acalentadora de Cloud Song à corrupção psicadélica de The Garden of Earthly Delights, a versatilidade prevalece. Por vezes soa a Grace Slick dos Jefferson Airplane, mas a entrega contida e distante aproxima-a igualmente de Nico. E, com a devida distância territorial e cultural, não será descabido considerar os U.S. of A. os Velvet Underground angelenos.

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Joseph Byrd, a mente impulsionadora do projecto, estudou em Nova York com John Cage, privou com Yoko Ono e aspirou grandes quantidades do perfume transgressor da música vanguardista e experimental da cidade que nunca dorme. As suas aspirações obtiveram eco genial neste disco. São dele as manipulações electrónicas e a parafernália de sons inusitados. É tarefa árdua destacar momentos isolados nesta obra tão louca mas tão lúcida, mas é igualmente impossível não mencionar o brilhantismo de Love Song for Dead Che (e suas óbvias conotações), Where is Yesterday e a tripartida odisseia sónica de The American Way of Love. Aos dez temas originais do disco, foram acrescentados outros dez, na sua reedição de 2004. A sobremesa ideal para o prato principal que a antecedeu. Raras vezes o nome United States of America esteve associado a algo tão popularmente erudito e pouco conservador. Os campos férteis de muitas ideias da música popular contemporânea começaram a ser semeados aqui.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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