escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

As sombras românticas de John Surman

John Surman é uma das figuras mais eminentes e influentes do jazz britânico. Surgido na fervilhante revolução jazzística europeia de finais da década de 60, acabou por distanciar-se do estilo fogoso e vibrante dos primórdios para abraçar uma estética mais ambiental, nocturna e contemplativa. Uma das obras de referência deste excelente músico é Private City, um disco que eleva o jazz a terrenos tão sombrios como etéreos, mas sempre emotivos.


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John Surman começou por ser uma figura chave no boom do novo jazz britânico nos finais dos anos 70. Saxofonista exímio e caloroso, foi abandonando ao longo da sua carreira os territórios mais óbvios da cartilha jazzística, enveredando por estéticas mais atmosféricas. Esta lenta migração deveu-se sobretudo à ECM, casa da qual Surman é residente a tempo inteiro desde a edição do seminal Upon Reflection em 1979. O estilo do músico inglês é, hoje, inconfundível. São enaltecidas as atmosferas e as ambiências nocturnas e instrospectivas e o tom meditativo e melancólico impera na maioria dos seus registos. John Surman acaba por ser, em simultâneo, uma influência e um produto da escola ECM, um dos mais importantes definidores da sua estética.

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Da sua vasta obra, um dos discos mais emblemáticos é Private City, de 1987. Peça criada para um bailado com o mesmo nome, feita de improvisações e na qual - como começará a ser tendência no seu percurso criativo - Surman executa todos os instrumentos, saxofone, clarinete, piano e sintetizadores. O controlo é total, a mestria absoluta. Apesar do nome, a música não evoca apenas paisagens citadinas. Persiste um misticismo, que conjura os elementos e acorda sentimentos. O álbum começa com um dos mais belos e perenes temas de John Surman, Portrait of a Romantic. Uma lenta e arrebatadora espiral de clarinete sobre piano eléctrico com efeitos balsâmicos e transcendentes. E termina com The Wizard's Song, outra composição perfeita, atmosférica e cinemática, que fica a ressoar inconscientemente muito tempo depois do disco ter terminado.

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Outras magníficas paragens nesta jornada incluem Not Love Perhaps, ruminação crepuscular ladeada por vozes fantasmagóricas, The Wanderer, melodia cristalina e contemplativa que serpenteia encantatoriamente ao nosso redor, e Roundelay, em que uma miríade de sopros em overdub ganha contornos de jazz de câmara. Místico, sideral e sempre envolvente, Private City é a obra de um músico romântico mas aberto às possibilidades sónicas para expandir a sua arte. Dessa forma expande igualmente o coração e a mente de quem o ouve.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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