escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Jimmie Spheeris, o trovador perdido

Jimmie Spheeris continua a ser um mistério para a maioria dos melómanos. O cantor norte-americano editou na década de 70 uma série de discos que oscilam entre o culto e o esquecimento e que o tempo tem vindo lentamente a resgatar. Dessa safra, Isle of View é o objecto de maior beleza e inspiração. Mesmo a título póstumo, nunca será tarde para enaltecer os seus encantos e os do seu criador.


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Se Jimmie Spheeris não tivesse morrido num acidente de moto em 1984, quem sabe o que faria hoje. Ilustre desconhecido, debitando talento em cada um dos cinco álbuns de originais que deixou como legado, Spheeris começou como baladeiro ensopado em néctares folk e terminou como uma das figuras mais imponderáveis da New Wave dos anos 80. Arrepiou caminho pelos trilhos do jazz e do rock, fundiu-os com estilo e alma, mas será sempre a sua faceta acústica a mais celebrada. O primeiro álbum, Isle of View, é uma raridade em permanente clausura, a que poucos acederam, mas que encanta quando se deixa descobrir.

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A sonoridade de Isle of View é introspectiva, serena e crepuscular. Impregnado de ambiências outonais e de flutuantes melodias, é parente próximo dos primeiros álbuns de Tim Buckley ou dos momentos mais carregados de David Ackles. Traz com ele o rasto dos finais de Verão, de entardeceres sob céus avermelhados e mares dourados pelo pôr-do-sol. Em suma, um punhado da magia que os músicos da costa oeste americana tão bem sabiam dominar nesta época (estávamos em 1971).

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As canções etéreas sucedem-se em catadupa, numa doce irrealidade. Parecem chegadas de um mundo imaginário, conquistando este e entranhando-se nele. As cinco primeiras são intocáveis, especialmente For Roach, Monte Luna e a excepcional I am the Mercury. Os movimentos alargam-se em momentos seleccionados, como Long Way Down ou nas reminiscências de Jackson Browne avivadas por The Nest. Mas são apenas aguaceiros que estancam perante a tirania apaziguadora de Come Back e o transcendente tema final, Esmaria.

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O resgate para a luz de Jimmie Spheeris tem sido levado a cabo por gente tão consagrada como Midlake, John Grant ou Bon Iver. É certo afirmar que quem ouviu Isle of View não tem como escapar à expressão homófona que o título esconde: I Love You. Esta e outras revelações estão no único local da Web inteiramente dedicado ao homem e à sua arte.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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