escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Amon Düül II - Sons de caos e liberdade

A música dos Amon Düül II desafiou convenções e ultrapassou os limites do rock. Contra-corrente, vanguardista e comunal, o colectivo alemão virou os cânones do avesso e os seus discos e performances fazem parte da vertente mais livre e radical do psicadelismo. Foram uma das bandas fundadoras da nova e experimental vaga do rock alemão nos finais de 1960 (vulgarmente conhecido como Krautrock)e hoje celebra-se a sua obra mais marcante: Yeti.


MI0002749895.jpg

A maneira mais fácil de definir os dois grupos musicais surgidos da comuna artística Amon Düül é a seguinte: uns sabiam tocar, os outros não. Uns elevavam o activismo político e a total liberdade experimental, outros aprimoravam a técnica e a complexidade musical. Falo hoje dos segundos, conhecidos como Amon Düül II. Os anos 60 aprimoravam radicalismos, políticos, artísticos, filosóficos. A comuna sediada na Alemanha Ocidental dava o exemplo, convindo lembrar que foi dela que surgiram as bases do famigerado grupo terrorista Rote Armee Fraktion, igualmente conhecido como Baader-Meinhof. Mas podemos separar o trigo do joio, pois os Amon Düül II eram gente de paz. Relativamente. Quem escutou a sua música e viu os seus espectáculos, notou certamente que o conceito de ordem passava por mergulhar no caos.

ml-sp-729-krautrock-20130307153010870628-620x349.jpg

Iniciaram o seu trajecto discográfico em 1969, com uma obra-prima alucinada chamada Phallus Dei (literalmente, O Falo de Deus), uma das pedras basilares do Krautrock. Ao segundo disco, Yeti, alcançaram o estatuto de lenda. As quatro partes que (de)compõem Soap Shop Rock precipitam-se sem alerta, como uma bátega psicadélica pronta a encharcar-nos até aos ossos. O som sujo e pouco polido do rock de garagem funde-se a vozes transviadas e divaga livremente. Um violino em marcação cerrada durante todo o tema sobrevem, magnânimo, no quarto andamento - Flesh-Coloured Anti-Aircraft Alarm - e a orgia sonora termina como começou.

AD.jpg

She Came Through the Chimney levanta uma brisa folk, que acaba por evoluir para uma aragem de violino desvairado e órgão sem travões. O tremendo Archangels Thunderbird devolve-nos aos braços da electricidade. Cerberus volta a raptar-nos para paisagens campestres intoxicantes. Estas intermitências entre a calma e a tempestade perduram por todo o disco. O tal caos organizado que só faz sentido quando não parece fazer sentido nenhum e em que a liberdade escoa sem limites nem imposições estéticas.

121dc50d40e84ed6369695a4177434b41716b42.jpg

The Return of Ruebezahl, o poderoso Eye-Shaking King e Pale Gallery sucedem-se numa rajada de tempo difícil de cronometrar, impossível de controlar. A fechar, uma trindade de longas improvisações: os esmagadores Yeti, Yeti Talks to Yogi e Sandoz in the Rain. Três odisseias sónicas que levaram rock e folk onde poucos se atreveram a ir. Três panaceias para almas que estejam a levar a vida demasiado a sério e necessitem de bloquear o pensamento para abrir os poros da mente à sensação, a algo escuro mas libertador.

166759.jpg

A capa de Yeti merece, obrigatoriamente, referência. O ceifeiro de vidas (em alemão, der sensenmann) que a ilustra dava pelo nome de Wolfgang Krischke, técnico de som da banda que morreu de hipotermia sob os efeitos do LSD. Este episódio tenebroso ajuda a acentuar ainda mais a atmosfera negra e densa do álbum, ao mesmo tempo que a icónica fotografia perdurou ao longo dos anos como uma das imagens de marca, quer dos Amon Düül II, quer do próprio folclore Krautrock. Que o diga Julian Cope, cuja obra de culto Krautrocksampler a ostenta na capa. Abominável somente no título, Yeti persiste como um ritual envolvente e louco, que nos tira de uma espécie de nada para nos levar a uma vaga ideia de tudo.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/musica// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //José Luis Marques