escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Gene Clark, o cowboy cósmico

Gene Clark foi membro fundador de uma das bandas mais marcantes do rock norte-americano, os Byrds. Porém, foi a solo que a sua visão se expandiu e a música que criou é, ainda hoje, motivo de culto e inspiração. De todos os discos que editou na sua relativamente curta existência, No Other é a obra-prima que eternizou a sua alma.


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Os Byrds foram pródigos na disseminação de grandes músicos norte-americanos. Roger McGuinn, David Crosby e Gram Parsons fizeram parte do seu concentrado sonoro, um dos mais ilustres da história. Mas é o seu génio mais obscuro e a sua melhor obra que falam mais alto hoje. Gene Clark - o verdadeiro cosmic cowboy - e o honorável No Other. Imediatamente antecedido por dois excelentes álbuns (Roadmaster e o magnífico White Light) em que country rock e folk se misturavam com ingredientes mais elaborados e arranjos de subtil bom gosto, este registo de 1974 é o lado perfeito do triângulo. Ainda um disco que encontra no country rock e na folk a sua força motriz, No Other acaba por transcender os géneros e de ser, a espaços, inclassificável. Uma obra maior em todos os sentidos, em que arranjos quase barrocos dão as mãos a canções imensamente tristes e belas.

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Strenght of Strings conjuga harmonias vocais a la Byrds com uma orquestração de reminiscências orientais. Como em quase todo o disco, a voz de Clark quase dói ao ouvir. E o resultado é de uma melancolia tão transcendental que não admira que o tema fosse recuperado em Filigree & Shadow pelo projecto da editora 4AD This Mortal Coil. Céus negros abraçam o voo de Silver Raven, espectral e expansiva balada que cruza Neil Young e a atmosfera gótica e poética de Poe ou Hawthorne.

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Tal como a beleza, a inspiração parece nunca esgotar-se ao longo de No Other. A quantidade de estranhos efeitos, de diferentes instrumentos e de overdubs propaga-se ao longo do disco. Se essa inspiração é ditada por substância ilícitas nunca saberemos, mas o que é certo é que influências country e folk raramente soaram tão etéreas e narcóticas como em Some Misunderstanding ou From a Silver Phial. E o arrasador tema-título tem cicatrizes de psicadelismo ao longo da sua pele.

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Os momentos mais límpidos e convencionais surgem nos temas que evocam o passado musical de Clark: Life's Greatest Fool e The True One. Ambos seriam a banda-sonora perfeita para ressoar entre as paredes de um honky-tonk sofisticado. A terminar, Lady of the North é outra estupenda balada barroca, romantismo de pradaria em estado puro. E o álbum desvanece-se com o cowboy cósmico a desaparecer rumo ao pôr-do-sol. É mais que recomendável a edição remasterizada de No Other que saiu em 2003. A soberba produção do disco ganha imenso com as novas roupagens. Gene Clark, infelizmente já falecido, pode ter uma certeza esteja onde estiver: There will be No Other like him.


José Luis Marques

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