escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

Harmonia: Entre a beleza fria e o calor do ritmo

O colectivo Harmonia foi, provavelmente, o supergrupo mais obscuro da história. Dois terços de Cluster e um terço de Neu! convergiram para este enigmático mas seminal trio. O legado que nos deixaram é tudo menos extenso, mas poucos conseguiram desbravar territórios tão vanguardistas e inóspitos com fervilhante criatividade e abstracta beleza. Um fino exemplo de como a música alemã da década de 70 começou a erguer os alicerces do que hoje é entendido como moderno.


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A discografia dos alemães Harmonia é feita de duas obras seminais, uma parceria inspirada e um álbum de culto gravado ao vivo. Muitas vezes, e com alguma sensatez, definidos como o supergrupo do krautrock, este trio é um dos pilares mais sólidos da sustentação deste género nos idos anos 70. Michael Rother (dos Neu!) congregou-se a Hans-Joachim Roedelius e Dieter Moebius (os Cluster) na Alemanha rural, desenvolvendo um estúdio e reunindo material sonoro. A primeira exposição criativa do grupo data de 1974 e intitula-se Musik von Harmonia. É notória a convergência entre as esparsas e abstractas paisagens ambientais dos Cluster e os ritmos mecânicos e deambulantes dos Neu!. No seu todo, o disco é uma experiência sensorial soberba e desafiante, construída em torno de electrónica arcaica e à base de uma economia de meios que o transforma num objecto ainda mais charmoso e intrigante.

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A música diverge, faixa após faixa, entre o minimalismo hipnótico (Watussi, Sonnenschein), o vácuo ambiental (Sehr Kosmisch, Ohrwurm) e o robótico ritmo motorik (Dino, Veterano). Ahoi! é um devaneio beatífico em órbita lunar e a profética Hausmusik encerra o circuito em toada de música de câmara cibernética. Extremamente vanguardista, criativo e visionário para a época, Musik von Harmonia deve ser entendido como um facho que ilumina de forma ténue, mas perene, os desenvolvimentos electrónicos mais inteligentes que estavam para vir.

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À boa maneira germânica, para suceder a uma obra-prima, nada como fabricar outra. No absolutamente fabuloso Deluxe, editado em 1975, perfeccionismo e disciplina não faltam. Mas, em relação ao seu antecessor, a música é mais ampla, mais bombástica, o som enche-se de luz e ofusca-nos com a intensidade do seu brilho. Para além de ser um dos melhores temas de sempre da kosmische musik, a peça que abre o disco - Deluxe (Immer Wieder) - é um rasgo de génio e uma espiral interminável de energia melódica. Uma fonte de alegria inesgotável. Walky-Talky prossegue o deslumbramento, ao longo de uma marcha circular, faseada pela guitarra em cascata e pela electrónica subversiva. Desta feita transformados em quarteto, os Harmonia demonstram muito bem neste tema que a inclusão do baterista Mani Neumeier (dos Guru Guru) foi mais que acertada. O senhor é um aristocrata do ritmo. Segue-se novo golpe de génio com a viagem alucinante de Monza (Rauf und Runter). É o tema mais enérgico da história da banda, um cruzamento entre o proto-punk e a compulsão motorik, muito ao estilo do que se encontra no terceiro álbum dos Neu!, igualmente de 1975. Apetece pegar no carro e acelerar vertiginosamente numa estrada deserta, rumo a nada.

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Notre Dame pára para recuperar o fôlego e fá-lo em torno de sintetizadores etéreos e ritmos que apenas roçam a pele. Gollum, excelente como tudo até aqui, desbrava território mais denso e sombrio, num tenso e sincopado avanço, talvez fixado no Anel que o domina (convém lembrar que esta gente era muito apreciadora do imaginário de Tolkien). E, no final, chega Kekse, melodia de embalar, cristalina e intra-uterina. O som definha lentamente, até imperar um estranho silêncio que parece prometer mais qualquer coisa, mas que nada devolve. Mais um disco que ninguém ouviu na altura devida, mas que continua a ser uma fonte de prazer e descoberta para quem o conhece hoje.

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O olho de falcão de Brian Eno não deixou de capturar a inventividade e o brilhantismo do projecto alemão. Eno chegou até a nomear os Harmonia the world's most important rock band em meados dos anos 70. A admiração e a cumplicidade artística culminaram num álbum em colaboração. O mesmo é conhecido como Tracks and Traces, data de 1976 e é, naturalmente, soberbo. Importa aqui realçar a reedição que teve lugar em 2009 e que, para além de manter os temas originais, adicionou-lhe mais três extras de fino recorte. Num disco pensado e executado por quatro sumidades da música moderna, a totalidade dos temas é inexcedível.

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Sobressaem, porventura, a placidez atmosférica e algo nostálgica de Welcome, a planante e contemplativa Almost, ou as longas deambulações meditativas e improvisadas de Sometimes in Autumn e By the Riverside. Mas Weird Dream é um belo pedaço de electrónica cósmica, assim como Les Demoiselles é um momento onírico de electrónica naïf. Luneburg Heat é o único tema vocalizado (por Eno) e estende a passadeira para a estrutura das suas futuras colaborações com Roedelius e Moebius. O elo quebrou-se após a edição de Tracks & Traces, com cada membro do colectivo a enveredar por outros projectos ou a voltar a territórios familiares. Pontuais colaborações entre eles viriam a surgir, mas nada com o peso e a lenda do nome Harmonia.

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Mais de 20 anos depois, e em plena redescoberta dos sons da kosmische musik, vem à tona um álbum perdido, uma gravação ao vivo de 1974. É o som dos Harmonia no seu mais primitivo, vanguardista e cerebral. O disco arrasta-se, sonâmbulo e estático, ao longo de cinco magistrais peças, num balanço perfeito entre melodias espectrais e frias e o puro gozo da experimentação. Realce para a tríade Schaumburg, Veteranissimo e Holta-Polta, que excedem os dez minutos de duração, espraiando-se num serpentear electrónico, rumo a uma lenta e perseverante conquista mental. Ainda e sempre, sons que não são deste mundo, únicos e estranhos como tudo o que ultrapassa as convenções. Aqui estão quatro discos a ter e a estimar. Quatro obras à parte, detentoras de uma linguagem própria, fora dos parâmetros definidos pelas estéticas anglo-saxónicas e norte-americanas. E, quando a estética é tão sensaborona que tudo parece igual, nada como ouvir o que não se parece com nada.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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