escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

As sinfonias oníricas dos Antlers

Uma ideia musical de contornos folk e estética lo-fi, em que as ambiências acústicas e uma vastidão bucólica convergem em canções aparentemente simples e despojadas mas com uma porta entreaberta para um mundo subterrâneo e de promissoras delícias.


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Os nova-iorquinos Antlers são um grupo à parte na música alternativa da actualidade. Começaram como um riacho acústico que encorpou até se tornar um mar sonoro, tão transparente quanto profundo. Deles é uma música que se entranha devagar, não cedendo a imediatismos que não se rejam pelo princípio do belo. A eles pertence já um pequeno panteão no mundo de sonho que erigiram.

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Surgidos em 2006, os Antlers começaram por ser um projecto a solo do vocalista e guitarrista Peter Silberman. Uma ideia musical de contornos folk e estética lo-fi, em que as ambiências acústicas e uma vastidão bucólica convergem em canções aparentemente simples e despojadas mas com uma porta entreaberta para um mundo subterrâneo e de promissoras delícias. Os álbuns Uprooted e In the Attic of the Universe , respectivamente de 2006 e 2007 são, assim, álbuns a solo de Peter Silberman em tudo menos no nome. Discos de pequena duração e produção artesanal, mas que pressagiam já a fermentação de ideias maiores.

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Em 2009, os Antlers apresentam-se como uma verdadeira banda. Com a entrada do baterista Michael Lerner e do multi-instrumentista Darby Cicci, a música expande-se e a ditadura acústica dá lugar a uma democracia eclética, em que o som cheio, atmosférico e espacial que caracteriza o colectivo começa a florescer. A primeira prova é Hospice, um disco tão delicado como esmagador e que narra, com laivos conceptuais mas livres de pretensões, a história de amor disfuncional entre o funcionário de um hospício e uma doente terminal.

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Alternando entre o frio e o sentimental, o sussurro e o grito, Hospice é uma obra poderosa e cuja emotividade flagelante consegue transportar para o ouvinte as cicatrizes das suas feridas. Temas belos e intensos como Kettering, Sylvia, Bear ou Two evoluem a relação condenada a um estado quase épico. Ainda e sempre, Hospice é um disco a ouvir com urgência, mas ao qual o regresso nunca é fácil e provavelmente estará destinado aos dias em que tudo é escuro no nosso mundo privado.

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Dois anos depois, é editado Burst Apart. Se Hospice era uma fractura exposta, o seu sucessor é uma dor suave e contida. Que não queremos sentir mas também não queremos que termine. A música respira ares nocturnos e exala romantismo urbano. É agridoce e repleta de melodias recorrentes, parecendo seguir um tronco comum que se ramifica para criar tentáculos do mesmo tema. Preenche a solidão com o seu toque esparso e delicado, mas parece exigir a nossa solidão para ser assimilado.

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Peter Silberman canta num transe contido, entre o frágil falsete e o arrebatamento confesso. A miríade de instrumentos sucede-se, com as electrónicas a adoptarem um papel de charneira por entre a guitarra liminar e a abstracção do ritmo. As canções, essas, surgem mais fortes e penetrantes que nunca. Pequenas sinfonias oníricas que encantam e confundem e cuja perfeição sonora e emotiva chega a ser dolorosa, como em I don't Want Love, No Widows ou no desespero metafórico de Putting the Dog to Sleep. Momentos mais impetuosos e enérgicos surgem em Every Night My Teeth Are Falling Out e French Exit, mas nunca deitando por terra o atestado de poesia e romantismo, surgido em pleno momentum hipster, porém transversal a todo o gosto elegante e intemporal.

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2011 e 2012 assistiram à edição de dois EPs - (together) e Undersea - que funcionaram como pontos de paragem de elevada qualidade entre discos de longa duração. O primeiro veste novas roupagens a temas antigos e apresenta versões e colaborações com outros pares artísticos; o segundo mantém o rigor estético e a envolvência atmosférica do grupo, com destaque primordial para o uterino Drift Dive e para a espiral lenta mas fustigante de Zelda.

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Familiars, o terceiro álbum dos Antlers, é lançado em 2014. Desta feita, o destaque recai de forma flagrante sobre os arranjos orquestrais que adornam o disco. Fantasmagóricos arranjos de sopros que oscilam entre o funesto e o caloroso e que, mais que embrulhos, acabam por ser o esqueleto musical da obra. O tom outonal e bruxuleante do disco é uma constante ao longo das suas nove composições, esmagadoramente lentas e arrastadas por um ritmo processional. A voz e a atmosfera dominantes transportam-nos para uma melancolia cinzenta mas idílica, na qual Jeff Buckley e os Joy Division se reuniram para espantar espíritos.

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Tal como todos os discos dos Antlers, Familiars deve ser ouvido como um todo. Tal como todos os discos dos Antlers, é impossível sair emocionalmente incólume de tal propósito. Talvez Palace, Hotel e o destroçador Intruders sejam os temas que mais se entranham. Mas a combustão lenta de Parade e a luz intermitente de Refuge não são menos que assombrosas na forma como constringem a nossa alma como hipnóticas serpentes.

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Nove anos volvidos sobre os primeiros arremedos acústicos de Peter Silberman, os Antlers conquistaram o lugar de uma das bandas mais fascinantes e idiossincráticas da música alternativa actual. Já sabemos que são capazes da beleza mais sublime e do poder emocional e desarmante da sua música. O futuro começa agora.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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