escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

União das Tribos: a eterna chama do rock

O coletivo português União das Tribos formou-se em 2011. Desde então, tem construído um percurso ascendente, assente nos pilares do rock, na energia das canções e no entusiasmo das atuações ao vivo. No momento em que preparam a edição do seu segundo álbum de originais, nada como levantar o véu sobre uma das bandas mais promissoras do rock produzido em Portugal.


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O rock em Portugal está vivo e recomenda-se. Prova disso reside numa banda originária da cidade de Almada, cujos passos seguros até à data indiciam feitos maiores. Chamam-se União das Tribos e projetam-se a partir das raízes criadas noutro coletivo da aristocracia rock lusitana: Os UHF.

Nas palavras do grupo, a União das Tribos é uma ideia que existe na cabeça de António Côrte-Real (mentor e líder do projeto) há muitos anos. Levou muito tempo a amadurecer e a descobrir e conhecer as pessoas certas para a sua concretização. Tudo começou há 5 anos, com António Côrte-Real a tocar guitarra e o letrista David Arroz a escrever. O baixista Luis Simões (Cebola) toca igualmente com o António nos UHF e a eles juntou-se Wilson Silva, baterista da banda More Than a Thousand. O trio começou a gravar em Lisboa as demos daquele que viria a ser o seu primeiro disco, todavia ainda sem vocalista. António Côrte-Real conhecia Sérgio Lucas de audições que o vocalista tinha feito para o grupo Portugal Acústico e o mesmo acabou por ser convidado para ser a voz da União das Tribos. Este núcleo de 4 músicos gravou o primeiro disco homónimo em 2014 e o EP Viver Assim em 2015. Por motivos pessoais, o vocalista Sérgio Lucas abandonou a banda e, após um período de reflexão, a mesma voltou a fazer audições à procura de novo vocalista, tendo a escolha recaído sobre Mauro Carmo, que pertencia ao grupo Red Lizzard.

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A União das Tribos debita um rock puro e duro, clássico e melódico, agressivo mas positivo. De acordo com o grupo, os músicos são oriundos de universos musicais diferentes e essa é uma das nossas riquezas. A parte musical nasce do compositor António Côrte-Real e aí assumem-se influências que vêm dos Led Zeppelin aos Cult, ou dos Cream a Jimi Hendrix. Acerca da escolha de cantar rock na sua língua-mãe, o português, a resposta não podia ser mais nobre: Porque vivemos em Portugal. Temos uma cultura e língua riquíssimas e se não a preservarmos, ninguém o vai fazer por nós.

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Criar uma banda rock atualmente pode parecer um anacronismo, tendo em conta as linguagens musicais que ultimamente têm proliferado e, de uma certa forma, ofuscado um pouco da ribalta a energia emotiva do estilo. Se o rock nos anos 70, 80, 90 e 2000 fez parte do mainstream, hoje em dia não faz, refere a banda. A grande maioria das rádios e televisão não passam rock e assim torna-se mais difícil passar a mensagem ao público. Não nos lamentamos, as coisas são o que são e nós fazemos o que gostamos: angariar novo público a cada concerto - como aconteceu claramente no concerto de abertura dos D.A.D. em que, no espaço de poucas horas, a nossa página de Facebook angariou cerca de 70 novos seguidores. Em cima do palco sentimos a energia e a manifestação do público canção após canção. O que nos transmitiu uma energia que na segunda metade do espetáculo nos fez tocar mais com o coração do que com a cabeça e é assim que deve ser. É assim concerto após concerto, noite após noite. Se chegarmos a casa com mais um fã é porque valeu a pena. Neste sentido, entendemos claramente fazer parte de um nicho.

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Este nicho tem todas as condições para se transformar em algo bem mais abrangente. O concerto acima mencionado, que teve lugar no passado dia 2 de Junho e no qual a banda assegurou a primeira parte dos históricos roqueiros D.A.D., foi um belo testemunho do que a União das Tribos tem para oferecer. Não faltou garra, emoção e energia contagiante a cativar o público. Merece particular destaque o líder e motor do grupo, o guitarrista António Côrte-Real, que trata as seis cordas com mestria e ardor e será, porventura, um dos mais entusiasmantes músicos rock no Portugal do presente. Questionado acerca da sua notória entrega ao instrumento e dos seus heróis da guitarra, António responde: No dia em que peguei na guitarra pela primeira vez com a intenção de tocar, deixei de querer ser jogador de futebol. Passei a viver em função da guitarra. As guitarras para mim fazem parte da família. Os meus heróis são Jimmy Page, Jimi Hendrix, Billy Duffy, Eric Clapton ou The Edge, por exemplo.

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Ao escutar temas dos discos entretanto editados pela banda, tais como As Pedras que Nunca Pisei, A Razão de Acreditar ou Viver Assim deparamo-nos com canções bem estruturadas, pungentes na entrega e carregadas de alma. Um grupo já emancipado e cuja identidade começa a vincar-se à medida que o futuro vai emergindo. A merecer igual destaque encontra-se o seu mais recente single, uma versão inspirada e certeira do clássico Rockin' in the Free World de Neil Young. O primeiro disco abriu-nos a janela, o segundo disco - que estamos agora a gravar - vai abrir-nos a porta, afirmam com justificado otimismo. Relativamente aos planos da União das Tribos para o futuro, os mesmos passam por lançar e promover em Outubro deste ano o disco que estamos agora a gravar. Podermos continuar a ter o privilégio de fazermos canções, gravar discos e dar concertos é o nosso objetivo.

Perante as auspiciosas provas entretanto dadas, o futuro da União das Tribos reveste-se de um misto de interesse e curiosidade. Dêem-lhe os vossos ouvidos, o vosso interesse, o vosso apoio. Eles responderão da melhor forma que sabem: com a força do rock que lhes brota da alma e lhes corre nas veias.


José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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