escrito no som

Vira o disco e não toca o mesmo

José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio.

União das Tribos: Novo vigor no rock português

Um improvável cruzamento entre o vocalista Mauro Carmo e a fadista Mafalda Arnauth, que resulta numa elegante balada urbana, melancólica mas luminosa.


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Amanhã, o novo álbum da União das Tribos, está recheado de excelentes motivos para encarar com optimismo o rock português da actualidade. Transversalmente atravessado por canções directas e intensas e enaltecido por um leque distinto de convidados, o segundo longa-duração da banda de Almada é uma obra vigorosa e dotada dos ingredientes necessários a perdurar.

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O que sobressai de Amanhã acaba por ser o ecletismo das composições e dos géneros musicais percorridos ao longo de todo o disco. Sem grandes surpresas, os estilos mais vincados são o rock e os blues, mas estes espraiam-se e misturam-se com outras tendências e o resultado final acaba por ser uma obra capaz de agradar às mais diversas audiências, embora nunca perdendo o seu fio condutor. A União das Tribos mostra-se, desde logo, mais coesa e evoluída, não só em termos composicionais, mas também líricos. Além da frescura que reveste as canções, as mesmas reflectem igualmente genuína maturidade e desvelo na criação.

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Logo a abrir o disco, um tema forte e certeiro intitulado Sozinho. Apodera-se de nós com a sua garra e contagia-nos com a sua melodia pungente. A tal não é alheio o convidado que partilha a canção - Tim, carismático vocalista dos Xutos & Pontapés e um catedrático do rock lusitano. Segue-se uma versão enérgica, com rasgos de punk rock, de Canção de Engate. O tema, imortalizado por António Variações, veste novas roupagens vocais por intermédio de Miguel Ângelo e o resultado é uma bela e pouco ortodoxa surpresa.

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A canção que dá título ao álbum é igualmente a principal candidata ao seu momento mais alto. Composição em absoluto estado de graça, tem tudo para alcançar o estatuto de clássico: melodia viciante, letra que flui sem amarrar a música e refrão certeiro. Seria impossível não sugerir aqui a sua audição. És Como És é a demonstração ideal da diversidade do disco. Com a participação do duo Anjos e a inclusão de um excelente arranjo orquestral, a canção parece entranhar-se logo à primeira escuta e termina deixando a sensação de um vinho com final prolongado.

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Rasgar Tudo faz jus ao nome e debita decibéis de um rock muito hard. António Côrte-Real continua a ser um dos mais completos guitarristas portugueses, talento bem patente ao longo de todo o álbum, seja na energia mais dura deste tema, seja na transição para a subtileza reptiliana da canção seguinte, O Tempo é Agora. Contratempo é outra agradável entrada nos cânones da banda. Um improvável cruzamento entre o vocalista Mauro Carmo e a fadista Mafalda Arnauth, que resulta numa elegante balada urbana, melancólica mas luminosa.

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Na recta final do disco, Só Eu Sei Porquê desvenda um lado mais sombrio e visceral, estendendo mais ainda a diversificada paleta sonora do álbum. Desta feita as vozes são partilhadas por António Manuel Ribeiro - histórico líder dos seminais UHF - e o rapper Carlão. O contraste entre ambas, associado às palavras, confere à canção uma atmosfera algures entre a introspecção e a raiva silenciosa. Merece igualmente um último e especial destaque o tema Bluesy, peça nocturna, fumarenta e de contornos jazzísticos, que navega por ondas de improviso e revela um entrosamento perfeito entre guitarra, piano e a secção rítmica composta pelo baixista Cebola e pelo baterista Wilson Silva.

Amanhã é uma obra que revela igualmente algo raro nos dias que correm: não se esgota à primeira audição e convida a sucessivas explorações dos seus detalhes e da sua diversidade. Dilata-se tentacularmente por entre estilos e personalidades musicais distintas, mas não empalidece a identidade primordial do grupo. Em suma, um disco que superou totalmente as expectativas e que merece inteiramente ser alvo de escuta, divulgação e sucesso.

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José Luis Marques

Prazeres e inquietações de um psicólogo lisboeta. Melómano patológico, escritor por devaneio..
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