escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

A saudade e o saudosismo nas artes

A abordagem da saudade na criação artística e na vida


O que se pode discorrer sobre a saudade, o sentimento que talvez seja o mais melancólico, regido pelas lembranças que acomete os homens? A saudade nos toma de assalto a partir do momento em que encerramos e damos desfecho a uma história ou fato em que estávamos inseridos, personagens chave de determinado desfecho, uma das peças da engrenagem essencial na conjuntura do enredo. Adentrando nas vias e veias de nossa memória emocional, este sentimento é fundamental para analisar e extrair lições, de valores primordiais para se levar como experiência no futuro.

As artes tem processo fundamental na preservação da memória da saudade, pois é a partir dela que conseguimos transformar as lembranças em algo palpável ao mundo externo. Na literatura basta ver todo o saudosismo cunhado nas lendárias poesias de Fernando Pessoa com seu lirismo melancólico, endeusando a saudade das terras e língua portuguesa. No cinema, temos o genial longa-metragem “Cinema Paradiso”, baseado nas memórias da infância do grande cineasta e diretor italiano Federico Fellini. Também temos o exemplo das pinturas impressionistas de Claude Monet, que em seus moldes e forma de retratar as imagens e paisagens, nos remete ao saudosismo da memória. Na Musica, Chico Buarque, Cartola, Adoniram Barbosa e Elis Regina, principalmente ao interpretarem e comporem Sambas, estão carregados do sentimento de saudade. E o que seria do Blues, se o saudosismo nem a melancolia não estivessem presentes neste estilo, este jamais seria a mesma coisa.

Na soma final da conclusão de um ciclo, saudade nada mais é do que aquilo melhor presenciado em determinado período, no qual revivemos encontros de concepções, aspirações, sonhos, ideias, objetivos, ações, sentimentos, em seres que naquele instante se fundem a nós de tal maneira, que sua presença é marcada a ferro e fogo em nossas lembranças mais sinceras e admiráveis.

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As artes então tem função neste contexto de dar vazão a este sentimento de forma palpável e por vezes material, fazendo termos noção da saudade através dos sentidos, como a audição(no caso da Musica) ou da visão(cinema, pintura, literatura). As nuances dadas ao saudosismo por meio da criação acalentam e confortam a necessidade do culto a saudade, definida de acordo com as expressões artística e suas particularidades.

Embora certas saudades por vezes sejam nocivas e extremamente bucólicas, até mesmo destas pode-se tirar algum proveito. Certamente se desprender de velhas paixões e negros amores é uma árdua tarefa ao qual temos a necessidade de nos empenhar para podermos ter um saudosismo e memórias saudáveis ao nosso ego. Libertar-nos destas amarras, das chagas de velhos sentimentos amargos é crucial para qualificar a saudade com um sentimento de certa forma, prazeroso.

A saudade por assim dizer, das tristezas que nos acometem, a melhor. Acalenta-nos, anestesia e entorpece de vislumbres de instantes únicos, aconchegantes, tal como o colo de mãe, nos conforta das dores e dos desgostos do presente. Não raramente, ela se torna o refugio imediato para os infortúnios do momento atual, pois o apego em torno da lembrança é um elo emocional carregado de nostalgia.

Contudo, não se pode apenas viver de lembranças muito menos ter a saudade como norteadora do seu viver. A linha que separa a saudade de refugio para se tornar uma fuga, é extremamente tênue. Transformar a saudade em uma fuga do presente é um maleficio dos mais nefastos que nos auto infligimos, pois neste processo vamos esquecendo-se de viver, perdendo o controle sobre os eventos atuais de tal forma, que acabamos por comprometer o futuro. Embora a história que ocorreu não possa ser reescrita, foi ela que nos moldou e trouxe-nos até aqui. A saudade é para ser relembrada, e não revivida.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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