escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

O Judas-Barbosa amarrado no poste: A volta do complexo de vira-latas

ressurge a auto-depreciação no brasileiro.


É evidente que não gostamos nenhum pouco do resultado tenebroso de terça-feira. Em pleno Brasil, a seleção brasileira tem seu pior resultado em uma copa do mundo, visto pelo mundo inteiro, numa atmosfera de incredulidade perplexa, como se o que estivesse acontecendo fosse uma grande alucinação coletiva nacional. Como a maior e mais vitoriosa equipe nacional de futebol da História conseguiu passar por esta humilhação na própria casa? por quais motivos e falhas isto ocorreu? culpa das estrelas? Da Dilma? do papai do céu?da Xuxa?Nada disso. Vamos esquecer de tudo e todo o contexto do futebol brasileiro com seus problemas, déficits administrativos e estruturais, os culpados sabemos bem: seu nome já está sendo usado como #hashtag em alguma rede social qualquer, é SER BRASILEIRO.

E agora, com esse radicalismo exacerbado que nossa adorável sociedade verde-amarela tanto adora destilar por ai, na justiça eficaz e bem quisto aos olhos do senso-comum retrogrado, preconceituoso e colérico, iremos nos fartar com a execução publica do ser brasileiro. Parece esta a unica forma de conseguirmos amansar o furor nacionalista e raivoso que o país está convivendo nestes dias de fúria incontrolável e sedenta por respostas "cabíveis" a esta hecatombe catastrófica que acometeu a nação tupiniquim. O povo, na sua indignação irracional e violenta, necessita de um bode-expiatório para o sacrifício em praça publica, tem-se a necessidade da população descontrolada e histérica de buscar e apontar um grande vilão. Mas eis que das profundezas do enraizado maniqueísmo da alma nacional, nos apegamos aos radicalismos e dicotomia do 8 ou 80: agora nada presta neste país de corruptos e idiotas, a culpa de tudo isto é destes habitantes mal-caráteres do território chamado Brasil .

br-darezzo.jpg

Desta forma e assim sendo,das profundezas do abismo das paranoias e paranoicos traumas coletivos nacionais brasileiros volta a tona. Aquilo que o escritor Nelson Rodrigues deu a alcunha de complexo de vira-latas, faz-se presente novamente no cotidiano. Novamente a histérica e depreciativa noção de que não passamos de trapo dos trapos humanos, farrapo e vergonha dentre as nações existentes deste mundo e quiça do universo, se este suportar o fardo de ter mais um Brasil imundo dentro de si. É nesta toada que o sentimento nacional está sendo emitido e transmitido aos olhos de si e dos outros, numa espécie de auto-flagelação masoquista. A clareza e facilidade que o brasileiro se julga ineficiente, incapaz e fraco quando ocorre alguma derrota( seja no âmbito da politica, esporte, cultura e por ai vai) é quase surrealista.

Lembremos por exemplo, quando Central do Brasil perdeu o Oscar, em que praticamente Fernanda Montenegro foi taxada de velha boazinha demais para ser sagrada com a estatueta. Ou das chacotas( com toques suaves e sublimes do racismo velado de nosso país) feitas com a ginasta Daiane Dos Santos quando caiu na final olímpica de ginastica no solo. Não preciso nem citar a maior das injustiças nacionais quando elegeram para Cristo o goleiro Barbosa da seleção de 1950, que provavelmente preferia ter sido violentado em um poste, como está em moda hoje, do que ter sofrido todas as acusações e preconceitos após a derrota para o Uruguai no fatídico maracanazzo de 1950. Fora o fato de considerar a si mesmo como inapto e inferior aos outros povos e nações, pois na rua ultimamente só escuto "alemães que sabem como se organizar e viver, não essa gentinha desse pais corrupto e sujo" ou "argentinos que tem força de vontade, raça e entrega, ao contrário do brasileiro vagabundo, preguiçoso e sem alma".

Vamos assim caminhando por estes sertões do coitadismo renascido das cinzas de uma derrota de 64 anos atrás, que nada de vergonhosa foi ou que devemos ter algum ressentimento sobre. A bem da verdade o ponto em comum entre ambas é o mesmo: a necessidade de buscar-se sempre um grande vilão, culpado por todos os males, pois, afinal das contas, admitir e perceber num contexto de que nem tudo está errado na derrota ou completamente certo na vitória. Lição e aula que parece não termos tido a paciência e tempo para adquirirmos.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Guilherme Lima