escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

Sociedade Futebol Clube

Os recentes casos de racismo e preconceito nos campos de futebol refletem as mazelas de uma sociedade conturbada e intolerante.


Os estádios de futebol tornam-se atualmente a versão contemporânea do coliseu e seus gladiadores. A retórica do pão e circo vai no mesmo caminho tanto no Império Romano quanto nos países de nosso tempo: a diversão de uma população inserida num contexto social conflituoso, violento e explosivo, onde governos temendo levantes populares devido as condições de vida impostas a grande maioria, acaba usando a diversão do grande público como remédio paliativo para conter os ânimos da população. Voltamos a ideia de distrair e alienar um setor da sociedade capaz de desafiar os ditames do poder, e assim, o status quo dos governantes é mantido, através do controle social daqueles mais desprovidos de acessos a bens de subsistência. A medida fica clara, pois cabeça vazia não é oficina do diabo, mas pode tornar-se fábrica da revolta.

Mas não é só na vertente de uma alienação da massa que o futebol acaba refletindo os aspectos da sociedade: a cultura, costumes e os traços sócio-econômicos ficam latentes, principalmente com as novas arenas construídas, não só no Brasil, mas mundo afora. Neste novo contexto de estádios mais parecidos com shoppings centers do que campos de futebol, afasta-se cada vez mais o futebol do povo que realmente o ama. A elitização de um esporte tão ligado as classes carentes da população transformou o futebol na bolsa de valores do esporte, a paixão se perde e o que realmente importa é especular o valor do passe do jogador, o patrocínio milionário das marcas de grife esportiva e o lucro da bilheteria das partidas, geralmente desviado em boa parte para o bolso dos dirigentes de clubes e federações futebolísticas.

Culturalmente as coisas ficam ainda mais perceptíveis sobre este grande mercado futebolístico. O retrato da sociedade é muito bem discernido ao analisar-se o perfil das torcidas e seu comportamento nas arquibancadas planeta terra adentro. Os recentes casos de racismo, por exemplo, reforça as certezas que a ideia errônea de que ainda existem raças de humanos, e não somente a raça humana, está incrustada vorazmente no espirito da sociedade ainda. planetabola.jpg Pensamento histórico-social difícil de ser superado, graças a cultura construída de tratar com desprezo, escárnio e intolerância, alguém simplesmente por ter a "cútis" escura. será que aqueles torcedores gremistas que bradavam a plenos pulmões "MACACO" para o goleiro do Santos em Porto Alegre, considerassem os jogadores negros do Grêmio "pretos de alma branca" então?

A Homofobia e machismo também marcam evidente e ignorante presença nos gramados. Cânticos e mais cânticos de todas as torcidas, do Brasil a China, reforçam a tese do futebol ambiente restrito as glórias do ego do macho complexado. Os Gritos de "PUTO", por exemplo, toda santíssima vez que o goleiro adversário repõem a bola em jogo, exacerba o conceito intrínseco a cultura da sociedade e do meio futebolístico, que para ser bem sucedido nestas duas esferas, faz-se necessário para o homem ser másculo e macho, simbolo máximo fálico de virilidade, no suor exalado pelos poros da pele. Mulheres nas arquibancadas e nos campos é outra problemática crassa e incomoda: o descaso com o futebol feminino e os comentários nada lisonjeiros a arbitras e bandeirinhas mulheres quase sempre vem com os clássicos xingamentos de "PUTA", "SUA PIRANHA", além dos tradicionais comentários "vai lavar uma louça" ou " lugar de mulher é no tanque mesmo".

Apesar do forte discurso critico adotado aqui sobre estes aspectos nada positivos do ambiente futebolístico e ter ciência de suas negatividades,é por ser extremamente apaixonado por este esporte que preciso salientar estas questões. Me irrito, choro, dou risadas, grito, emudeço, em suma: me emociono totalmente com o futebol. Mas assim como na sociedade, o preconceito e intolerância deve ser combatido e extirpado do futebol. Temos a urgência de por fim nisto, pois ele faz parte importantíssima de nossa sociedade. É preciso fortemente extinguir esta cultura predominante de que nos campos de futebol tudo pode.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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