escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

O Juiz sob judice

O JUIZ e a noção de que nem sempre o justo é o que se concebe como tal.


Filmes retratando o sistema jurídico fazem-nos entrar no mundo das leis, de seus caminhos e subterfúgios. O Juiz(2014) não foge a essa regra, com um embate dramático entre o eterno conflito ético do que pode-se conceber por justiça, ou melhor, o que é justo a bem da verdade. A pelicula vai explorar então os conflitos entre Moral, consciência, racionalidade, sentimentalismo, além dos caminhos extremamente ambíguos que as leis acabam tendo, pois elas são interpretativas e assim estão estas a mercê do entendimento humano, que não são perfeitos e podem cair em desastrosos erros de(um) julgamento.

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O longa-metragem acaba convergindo num ponto certeiro e de uma sinceridade que apesar de óbvia, é um fardo que desaba sobre a cabeça: o julgamento da própria consciência. Todos os personagens envolvidos na trama carregam alguma culpa sobre suas ações do passado e presente, que de alguma forma, eles mesmos constroem o proprio veredicto sobre culpabilidade. Perceber que sua conduta e proceder acabou indo contra o que se considera como certo perante você mesmo e aqueles que o cercam, torna-se praticamente um embate maniqueísta automutilador, consumindo as forças de espirito e físico de tal maneira que nem mesmo um júri a seu favor lhe daria plena absolvição.

Hank Palmer (personagem de Robert Downey Jr.) é o típico advogado que consolida a carreira tendo uma amoralidade para defender seus clientes, geralmente culpados e que ele não tem nenhum sentimento de culpa a principio de livrar crápulas das garras da justiça. Seu pai, o juiz de uma cidade do interior dos EUA, Joseph Palmer( Robert Duvall, que interpretou o eterno advogado Tom Hagen da família Corleone em o Poderoso Chefão) é o oposto do filho, acredita piamente nos ditames da lei tendo suas ações regradas por elas as seguindo fielmente, em que as frias palavras da lei são os princípios norteadores de sua vida. Entretanto, com o desenrolar da história, vai-se percebendo que os radicalismos opostos das posições de pai e filho são chagas profundas que separam um relacionamento fraterno entre ambos.

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Tudo que envolve o mundo jurídico deriva em complicações para personagens tão inseridos profundamente neste meio. Suas vidas parecem estar sendo toldadas por parágrafos das leis e suas derivações, cada passo dado em suas rotinas são permeados e controlados pelas regulações de normas. Isto acaba ressaltando e nos dando a percepção que isto se da a todos os cidadãos que estão vivendo sobre a mesma constituição de um país, estado ou município, mas estamos tão habituados a seguir boa parte das normas e regulações no cotidiano que não nos damos conta disto, em suma, regras e leis são heranças e habitos culturais boa parte das vezes. A justiça teoricamente seria um dos poucos ambientes neste mundo onde os homens seriam iguais, mas assim como no mundo real, a 7ª arte deixa bem claro que isto se reflete em uma bela utopia floreada num discurso de algum cânone em direito.

Fica claro ao final da trama, que a intransigência e a certeza absoluta são mera ilusão e de que as posições e perspectivas daquilo que acabamos por considerar como um ideal de justo e justiça, pode cair por terra assim que entramos em contato com uma visão divergente, com tanta força e obstinação quanto os nossos ideais. Juramentos desta forma são quebrados, regras são desconstruídas e alteradas, processos são desfeitos e talvez, o que realmente é certo é que certezas são variadas e incertas são as certezas.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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