escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

Do Populacho ao luxo

food-trucks e o conceito de "gourmet": o uso indevido da cultura popular.


Não é estranho que geralmente o gosto popular, seja desprezado e considerado como lixo por aqueles que se denominam como a elite cultural. Esta elite cultural, porém, muitas vezes acaba aos poucos tomando para si a cultura das camadas mais baixas da população, dando novos contornos a estas se apropriando indevidamente do conteúdo, forma e autoria. Atualmente temos visto uma tendência enorme, por exemplo, em glamorizar à comida de rua com os efeitos da palavra “gourmet”. Só andar pelas ruas: picolé gourmet, coxinha gourmet, croquete gourmet e por ai vai. Percebe-se que até o mais simples boteco está sendo tomado por rapapés e toda uma onda frufru deixando aquele velho senhor do bar com a pulga atrás da orelha em que algo não está indo como deveria.

Tudo converge nestas ações para formar um nicho de mercado e consumidores seleto, de poder aquisitivo bem superior ao comprador comum destes produtos que, por terem esta noção de “gourmet” e vanguarda, se tornam uma apropriação e exploração socioeconômica de criações culturais pertencentes à população em geral, virando um negócio extremamente frutífero neste momento. Alguns veem isto como empreendedorismo, mas a bem de verdade é um descarado oportunismo de não dar os créditos devido ou reconhecer de onde se extraiu a ideia. food truck.jpg Como se percebe, a cultura é produto dos mais valiosos. Serve para educar, entreter e convencer a população de certas ideias e modos de se viver. Vamos então institucionalizando a cultura, burocratizando a mesma e as vias para o seu acesso. O teatro, por exemplo, era espetáculo encenado nas ruas durante boa parte da história como na antiguidade e na idade média, e hoje, está enraizado em casas e locais onde se paga um preço exorbitante para assistir a uma peça. Toma-se de modo rasteiro e cruel as características de uma arte popular acessível a todos, transformando-a numa mercadoria de acesso restrito e usufruída apenas por quem pode pagar seu alto preço.

Temos outro exemplo muito cruel com o futebol no Brasil, algo culturalmente ligado às camadas populares brasileiras. Por mais que falem e bradem que a falta de publico nos últimos anos nos estádios seja culpa da violência e do fraco futebol praticado pelos clubes e seleção no país, com o aumento dos ingressos e este conceito de “Padrão FIFA” das arenas construídas para a copa do mundo, acabam por levar a uma higienização social dos estádios. A cultura do povo nos estádios, com seus trajes e comemorações peculiares está sendo trocada por aplausos e uma quietude típica de um concerto de musica clássica, nada a ver com o ambiente festivo e pulsante que outrora transbordava das arquibancadas, como a saudosa geral do maracanã. hotdog.jpg Isso é um processo silencioso e de certa forma imperceptível no primeiro momento, em que aos poucos a cultura popular vai sendo sugada e exaurida de sua origem e transformada em um produto caro e restrito a poucos. Vemos isso com bailes funk sendo dadas nas casas e baladas mais caras das cidades brasileiras e sendo reprimidas pelos agentes da lei quando organizados dentro das periferias das grandes capitais, ou na condição do uso do clássico chinelo havaiana como utensilio de luxo, quando não fazia muito tempo era considerado calçado de ajudante de obras.

Não vemos ai nestes casos uma assimilação cultural, e sim a apropriação indevida de cultura para fins de $$, especulando o que daria mais lucro numa espécie de bolsa de valores das tradições populares. Normatizando e dando ares de produto a cultura, estamos indo para determinar um empobrecimento na criação nas mais variadas áreas da cultura. É uma tentativa de tentar determinar e dizer o que é superior, na ótica do é melhor por ser mais difícil de consegui-lo, sobretudo quando para se obter o preço seja exorbitante. A criatividade acaba indo para o limbo, ficando apenas uma repetição de ideias e conceitos já utilizados há tempos pelo gosto popular.

Os que possuem uma condição econômica muito acima do restante conservam para si o que julgam ser uma cultura adequada, superior e vanguardista, Mas não menos alienante do que o lixo cultural que reciclam para a maioria da população, que se torna carente também de cultura, tirando destes suas raízes e tradições. É preocupante perceber que muitos vão ao modismo e na onda das tendências de “vanguarda” e acabem comprando a ideia e o conceito de que o cachorro-quente mais caro do food-truck seja melhor do que a do tio do trailer da esquina.


Guilherme Lima

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