escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

A guerra faz corações de ferro

Os horrores e dissabores de soldados num tanque de batalha na 2ª guerra e as contradições do agir humano.


Filmes de guerra geralmente lidam com os extremos das capacidades humanas. No limiar de atitudes e ações, é possível perceber as nuances do certo e errado em cada perspectiva, pontos de vista sobre o caos em que o ser humano está inserido no contexto de conflitos bélicos. Desta forma, as duvidas sobre como agir e o dever perante um ambiente propenso a atos mais viscerais, os questionamentos sobre si mesmo e o que a guerra nos leva a fazer com o semelhante, atormenta corpo e mente. É nesse ponto central onde toda a sequencia de tempo no longa-metragem Coração de Ferro vai seguir.

Coração de Ferro retrata o cotidiano de um grupo de soldados num tanque de guerra norte-americano no final da 2ª Guerra Mundial. Comandados pelo sargento Wardaddy (Brad Pitt), os soldados sob sua liderança estão experientes e endurecidos pelos combates durante a guerra, mas com a chegada do soldado Norman(Logan Lerman) todos acabam tendo que lidar com a inexperiência e ingenuidade sobre a guerra do recruta e motorista auxiliar. Neste enredo, o grupo é forçado a inserir Norman nos detalhes mais obscuros e sórdidos da guerra, na redundância e simplicidade maligna de que na guerra, você tem que matar para não morrer. Esqueça os porquês e o sentido da guerra em si: quando você está em meio às dores do conflito e toda sua carnificina, manter você e seus companheiros vivos passa a ser o objetivo prático no manual de sobrevivência. Cora_o_de_Ferro1.jpg Fica então a deixa que o filme nos passa, até que ponto o ser humano suporta a natureza da guerra em postar homens de lados opostos numa disputa homicida? Os questionamentos sobre bom e mal parece ser inútil, olhando-se racionalmente uma situação de combate, a ideia de heróis e vilões não passa de uma ilusão dos contos de fadas ou em romances épicos escritos para glorificar um lado e denegrir o outro. Na guerra as paixões são exacerbadas ao máximo, a fronteira e os limites da racionalidade e piedade muitas vezes vão para o limbo e atos de crueldade são cometidos e vistos como corriqueiros, coisas da rotina do campo de batalha de quem se esta acostumado com a morte e convive com ela.

Vai pensando-se afinal das contas que o medo e o temor da morte já não é mais um assunto assombroso para quem vivencia a guerra. Ele faz parte do cotidiano, tão natural quanto comer ou beber água. O horror da guerra gera o medo e a necessidade de autopreservação, logo toda ação tomada pela ser humano nestas condições é o instinto de sobrevivência atuando. Mas neste processo, vai se mutilando por completo tudo que prezamos e carregamos consigo em pensamentos ou ideias sobre ética, moral e de humanidade para com o próximo. Na guerra, barbárie e civilidade são apenas palavras. corac3a7c3b5es-de-ferro2.jpg Outro ponto levantado é a nossa capacidade de destruição mutua ao mesmo tempo em que somos capazes de deixarmos vivo alguém que poucos minutos antes estava tentando lhe matar com rajadas de metralhadora. A imprevisibilidade do comportamento humano é exemplificado e melhor notado no ambiente da guerra, pois na selvageria da batalha, o médico e o monstro que cada um carrega dentro de si aflora de maneira colossal. De certa forma, vamos tendo papel de deuses, pois temos o poder de tirar vidas ou conceder o perdão. Somos juízes, carrascos, prisioneiros de nós mesmos e do próximo.

Aconselho a ver não só Coração de Ferro, mas todo filme onde o pano de fundo é a guerra, como um exercício para tentar entender toda a capacidade na magnitude das incoerentes ações que o ser humano acaba tendo com o semelhante, consigo mesmo e o seu entorno. O calor da guerra explicita todo o caldeirão de contradições da mente humana, com seus anjos e demônios próprios. A guerra é sobretudo, horror humano na sua vertente mais extrema onde nossa capacidade de eliminar ou salvar é mais explicitamente notada.


Guilherme Lima

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