escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

American Sniper: um filme fiel a um livro pró-EUA

Mesmo correspondendo a História do livro, American Sniper erra na mão ao exaltar mortes a favor de interesses das esferas de poder.


American Sniper (Sniper Americano, titulo no Brasil) desde sua estreia, está envolto na polemica do total nacionalismo estadunidense implícito na sua abordagem, bem como nome, enredo, roteiro, história, e por ai vai. O filme é acusado de propagandear totalmente a visão americana no combate ao terrorismo bem como a atuação norte-americana na Guerra do Iraque. Isto fica claro para quem tem um mínimo de noção de geopolítica e história mundial, pois neste contexto a ideia de por o exército dos EUA como mocinhos é utopia que beira ao cinismo e falácia dos fatos passados e atuais. Pode passar a impressão pelo inconsciente de nossa cabeça vendo o filme que aqueles malditos iraquianos e árabes só querem o caos e promover sua “guerra santa” contra o Ocidente.

Claro que esta visão é o ponto de vista belicoso dos setores conservadores da sociedade nos Estados Unidos, e reflete o pensamento do senso comum de uma parte da população estadunidense fortemente influenciada pelo patriotismo cego e atrelado a uma moral cristã tão ou até mais fundamentalista que os jihadistas de grupos como o Estado Islâmico ou a Al Qaeda. O Atirador do exército Chris Kyle é na verdade o típico cidadão dos EUA alienado pela cultura vigente onde convive: defensora do porte de armas, da religião cristã, do “american way of life” (modo de vida americano), conservando certos costumes, muitos deles preconceituosos e racistas, principalmente contra as minorias dos negros e latinos. É esse modo de pensar que influencia o atirador, sua própria opção em se alistar nas forças armadas se originou numa crença de que a guerra seria para defender seu país de uma invasão estrangeira daqueles “homens bomba suicidas do Oriente Médio”.

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Seria ingênuo de nossa parte acreditar que o um filme baseado em um livro autobiográfico contando a carreira de um soldado estadunidense na guerra do Iraque fosse imparcial sobre como o conflito de fato é. Para o perfil de cidadão dos EUA, todo o contexto que envolve o conflito em território iraquiano é completamente ignorado. Os interesses políticos, econômicos e territoriais, principalmente no que se refere ao petróleo do Iraque e Kuwait, é posto para escanteio e acabam-se resumindo em: nós, os americanos defensores da democracia, liberdade e civilização VS os árabes, terroristas suicidas selvagens e bárbaros. O massacre cultural e militar feito pela intervenção militar norte-americana se tornam visíveis quando as cenas envolvendo a população civil iraquiana em meio ao conflito estão na tela, embora seja claro que mesmo nestas situações a glorificação de herói do soldado estadunidense permanece.

Mas a questão na verdade, haja visto a abordagem do filme, é se as criticas feitas ao Consagrado diretor Clint Eastwood estão certas em apontar um excesso nas filmagens deste patriotismo e numa pretensa propaganda nacionalista dos EUA. É preciso neste caso nos atentarmos em que o filme se baseia para fazer o roteiro e seguir a sua cronologia. O filme é baseado na autobiografia de um soldado norte-americano responsável por 160 mortes de inimigos em combate, ou seja, para ser fiel a história do livro e do próprio Chris Kyle, o longa-metragem inevitavelmente teria as características de certa exaltação aos feitos militares do soldado. Clint Eastwood para não distorcer a história abordada pelo livro e permanecer fiel à obra literária, filmou de acordo com o que foi escrito pelo atirador. Na busca artística pela melhor maneira de fazer a 7ª arte adequando da mais fiel maneira literatura com cinema, o diretor infelizmente passa por cima do ponto de vista do “outro”. O lado do conflito iraquiano é ignorado pelo filme justamente porque o livro sequer cogita abordar esta questão. O Filme de fato cumpre o seu papel: ser fiel a um livro contando uma história pró-EUA. american-sniper.jpg A temática de guerra sempre esteve presente na bibliografia cinematográfica de Clint Eastwood desde seu inicio. Dos seus clássicos Farwest até os mais recentes como Homens de Honra e Cartas de Iwo Jima, os conflitos bélicos foram fontes de grandes obras primas nas mãos do diretor. No entanto, em nosso mundo atual definir heróis e vilões é extremamente perigoso, a ideia de certo e errado, de bem e mal serve como instrumento de legitimar ações politicas, militares, econômicas, culturais e religiosas para garantir e assegurar interesses obscuros de altas esferas de poder. O pecado de Clint ao ser fiel ao livro é de não perceber que talvez o monstro esteja mais perto da casa da população norte-americana do que eles imaginam.

Cinematograficamente o filme American Sniper é uma boa obra. Tomadas de cena muito boas no ambiente de guerra, bem como o estilo único de filmar do diretor Clint Eastwood. Porém a questão de arte pela arte passa longe e muito do que envolve o filme em si. Por mais excelente que toda a técnica e emoção passada pelo longa esteja em sincronia e nos desperte certa comoção, para quem compreende o mínimo do que se passa no Oriente Médio percebe todas as nuances ideológicas incutidas no filme e assim cai por terra os argumentos a favor do longa. Não existe nenhum problema em ver e gostar do filme como obra cinematográfica, mas é necessário ter consciência de que só conta e glorifica um lado, e o outro é o outro da sarjeta. Como diria o escritor uruguaio Eduardo Galeano: “Na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre”.


Guilherme Lima

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