escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

Os abutres agora querem carne de primeira

A mídia e o elitismo social em suas escolhas recentes do que é considerado tragédia noticiada ou mera estatística para compor pesquisas.


Este começo de ano segue permeado e conturbado por noticias e eventos violentos, de forte impacto e influencia sobre o publico em geral. A mídia é claro vai noticiando estes fatos como de praxe, buscando uma audiência ao demonstrar através da exposição excessiva dos acontecimentos trágicos e sanguinolentos, uma espécie de grande espetáculo. Já não bastasse o que é visto nas ruas, somos inundados através dos veículos de comunicação com cadáveres expostos, mortes sendo constantemente usadas como pautas em estatísticas e o já tradicional sensacionalismo distorcendo os fatos. Ações já institucionalizadas na grande mídia, infelizmente, pois esta embasa seus atos na busca pela audiência a qualquer preço, e não na veracidade dos fatos ou na qualidade do produto que oferece.

Até ai nenhuma novidade, já que o nível da imprensa nos últimos anos decaiu e muito, perdida sem saber como renovar-se precisamente no desinteresse do publico por jornais, revistas e até mesmo a TV, preferindo as mídias eletrônicas como redes sociais e os sites de noticias a fim de se informarem. A mídia tem dificuldade abissal de renovar-se, apelando para o senso comum e estereótipos do que é certo e errado, assim a distinção que esta faz desde seus primórdios entre a morte de um branco classe média-alta e de um desafortunado morador da periferia negro, é inegável: a morte de um rico branco é uma tragédia e de um negro pobre mera estatística. Com o atentado a revista francesa de sátiras Charlie Hebdo, o preconceito racial e classista da mídia avançou sobre as manchetes internacionais. Latuff mídia suja (1).jpg Um grande circo por parte da mídia foi montado em cima do acontecido, em parte com a justificativa e o motivo alegado de que ataque terrorista contra a revista fora também uma violência à liberdade de expressão. Até ai tudo bem, mas é interessante ver como são sempre usados duas medidas para eventos com origens semelhantes podem ser ressaltados e evidenciados em detrimento a outro, sobretudo quando passamos a equacionar nesta conta país, região, condição socioeconômica dos envolvidos e sua origem étnica. Na mesma semana dos ataques a revista francesa Charlie Hebdo e em outros estabelecimentos na França que resultou na morte de 17 pessoas, sendo alçado a proporções de um grande espetáculo, ocorreram os massacres perpetuados pelo grupo sectário Boko Haram na Nigéria contra a população local. Já sofrendo com a pobreza que assola a região, os nigerianos foram submetidos pela sede de sangue de fanáticos que usaram a mesma justificativa dos terroristas na França: a religião.

As ações do Boko Haram, porém, não receberam 1/5 da atenção dada ao acontecido na Capital francesa. Na mesma semana onde 17 pessoas foram assassinadas em Paris, o Boko Haram fez milhares de vitimas na província de baga na Nigéria, cometendo atrocidades extremas contra a população, como a excisão (o corte do clitóris nas meninas como forma de controle sexual sobre elas) além de sequestros e estupros em massa. Mas isto mal foi noticiado pelos grandes veículos de comunicação ou se deu alguma ênfase na mídia. Nisto se percebe tacitamente que as ações do Boko Haram entram no hall das estatísticas do Preto Pobre, e o que ocorreu com Charlie Hebdo se encaixa na do rico branco. n-NIGERIA-BOKO-HARAM-large570.jpg Infelizmente, todo este descaso com as situações onde não se postam os olhos do publico, não se restringem apenas a Mídia, embora boa parte disto seja sua culpa. As próprias organizações internacionais se silenciam perante estes acontecimentos e outros similares, como no Caso recente dos ataques do grupo radical ISIS no Oriente Médio e a resistência heroica das populações locais, sobretudo de mulheres curdas frente ao sectarismo e belicosidade de um grupo extremamente organizado e violento. Políticos, representantes da sociedade civil, grupos organizados da população, todos fazem passeatas, manifestações e atos contra o ocorrido em Paris na sede da revista Charlie Hebdo, mas em relação ao ocorrido na Nigéria e Oriente Médio, o silencio é cínico e indiferente. A situação no oriente Médio e na Nigéria, assim como o genocídio da população jovem e negra em nossa periferia, é apenas estatística para institutos como IBGE ou a UNESCO.

Nisto assim segue os ditames daquilo que nos é passado como informação: relatos daquilo ou de pessoas que subconscientemente, nos fazem crer que são os melhores entre nós por ter a aparência condizente com o ideal que a sociedade faz e tem como exemplo. É numa hipocrisia evidente a olhos vistos todo um contexto de diversas formas de preconceito que acaba por determinar o gosto do publico, e o que de fato acabara dando audiência e resultado econômico mais rápido. Pelo Visto, abutres e urubus largaram a carniça dos assassinatos com origem na desigualdade e pobreza, seu gosto mesmo é pelo refino do filé mignon apodrecido da rica e ostentadora sociedade dita “branca”.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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