escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

TIRANDO DOS RICOS PARA OS POBRES, AINDA QUE SEM QUERER QUERENDO

O fascínio e a mística em torno dos Foras Da Lei.


Nestes tempos, as diferenças entre vilões e mocinhos seguem uma linha muito tênue, onde ser taxado, ora como um, ora como outro é lugar comum. Na verdade, identificar, hoje, quem é vilão e quem é mocinho, perde sentido, já que na devassa perpetrada a qualquer ser humano pelos meios de comunicação sobre sua História pessoal atualmente, sempre irá trazer à tona o médico e o monstro que cada um carrega dentro de si. O presente, com todo seu aparato de informação e julgamentos perniciosos e rápidos, sem nenhuma análise mais aprofundada dos fatos, impede a construção dos mitos muitas vezes. Mas ainda resiste no imaginário coletivo humano o fascínio que os foras da lei conservam entre nós, principalmente aqueles do passado, glorificados através de contos, causos e lendas.

Citemos Lampião e Robin Hood, exemplos de grandes personagens do banditismo que se tornaram célebres por seus atos e, num paradoxo destes quiméricos, conseguiram através da marginalidade, tornarem-se heróis perante toda a população de onde se originaram. Lampião Desafiava as autoridades dos coronéis e seus desmandos aos habitantes paupérrimos e desprotegidos do sertão nordestino, logo os atos de roubo e ataques feitos pelo Bando de Lampião e sua companheira Maria Bonita, eram enxergados pela massa que sofria nas mãos dos coronéis e do governo serviente aos interesses destes oligarcas, uma força de resistência e símbolo de luta a que se agarrar. Robin Hood, segundo a lenda, atacava a nobreza inglesa, exploradora dos camponeses ligados à terra que vivam apenas de seu trabalho nas fazendas, pagando impostos pesados tanto ao governo inglês quanto a estes nobres que os exploravam. Nos ataques, ele acabava tirando dos ricos e dando aos pobres o que na essência, lhes era por direito. cangaceiros__006.jpg Olhando desta forma, ambos se enveredam na ideia básica do desafiarem a ordem e um sistema ineficaz e injusto, mantenedor e conservador das desigualdades e opressões regidas pelos donos dos meios do poder. São criminosos e facínoras pelo prisma da justiça assim dita, esta controlada pelo estado e pela classe dominante, logo este conceito de justiça torna-se monopólio tanto do estado quantos pelas classes dominantes, regendo os ditames do governo, de seus aparatos de coerção e intimidação da sociedade como um todo. O povo que sofre na mão destes acaba vendo nestes foras da lei, símbolos e exemplos de uma resistência heroica e que exprime a vontade geral de rebelar-se contra a ordem instaurada. revolta-cachaca.bmp O que acaba ocorrendo vai ser a legitimação por parte da população dos foras da lei, ainda que de forma não oficial, de uma espécie de grandes mártires, homens comuns que vingam as injustiças feitas pelos poderosos, seres admirados e apoiados por seus atos extremados frente à força e violência originaria de um estado, governo ou mandatário, que em teoria deveriam proteger e servir, mas vai pela via de explorar e reprimir. Os foras da lei não são revolucionários, nem mesmo lutam realmente pela melhora das condições do povo em geral, mas seus atos individuais ainda que egoístas e mesquinhos buscando gloria e interesses pessoais, viraram espelho e davam esperanças por lutas na busca de melhorias ao conjunto da população como um todo. Foras da lei são exemplo tácito de insubmissão a ordem de um sistema prejudicial à maioria da sociedade em si. O que levou os foras da lei ao banditismo foi às condições impostas pela própria sociedade, forçando os a seguir pelos caminhos da “ilegalidade” do governo graças aos problemas recorrentes de uma grande exclusão socioeconômica devido a problemas como fome, pobreza, guerra e outros fatores sociais recorrentes, geradores de mazelas e marginalidade. Por mais atuante que seja a força repressiva usada contra este tipo de marginalidade, é quebrado por estes os modelos tradicionais do que deve ser considerado moral e eticamente como justo e correto. O banditismo, desde os primórdios do convívio humano em grupo, pode ser visto como forma de resistência e protesto contra desigualdades imposta de cima para baixo socialmente.

Como falei anteriormente em um paragrafo acima, os Foras da lei incomodam tanto os detentores do poder por um fato simples, com força para inverter os fatores de força e derrubá-los de seu lugar: serem símbolos para uma revolta contra a ordem vigente. A força de um exemplo dos foras da lei e seus ataques contra as classes dominantes pode ser a fagulha para um movimento de mobilidade social ainda maior, fato este realmente assustador para uma elite acostumada a seus privilégios. Ai está o fascínio e mística em torno dos foras da lei: ainda que de uma visão um tanto quanto torta, são exemplos para lutas contra desigualdade.

P.S: sobre este tema tão interessante, Recomendo ler o Livro “Bandidos”, do historiador Eric Hobsbawn.


Guilherme Lima

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