escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

As Veias Continuam Abertas

Quase 45 anos depois, a narrativa da Obra de Eduardo Galeano Infelizmente continua em boa parte presente no cotidiano Latino-americano.


Eduardo Galeano Faleceu nesta segunda, dia 13 de abril de 2015. Jornalista, escritor e grande intelectual latino-americano, o legado deixado pelo uruguaio é uma das grandes contribuições ao pensamento e formação numa consciência na percepção da realidade latino-americana. De sua prosa impar, Galeano esmiuçou das mais diversas formas as características históricas, culturais, políticas, sociais e econômicas da região com uma abordagem que acabou por inspirar as gerações que o sucederam. Obras como o "LIVRO DOS ABRAÇOS", "A TRILOGIA MEMÓRIAS DE FOGO", "FUTEBOL A SOL E A SOMBRA", "DIAS E NOITES DE AMOR E DE GUERRA" são de uma primazia que envolve o leitor num mundo em que somente o latino-americano com seu jeito de ser e enxergar o mundo daqui deste lado percebe as minucias e beleza de sua escrita.

Mas é na obra clássica “AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA” em que Eduardo Galeano acabou sendo consagrado como escritor e grande intelectual. Descrevendo a História da América-Latina, seus infortúnios, desgraças e chagas ainda expostas como o próprio titulo do livro diz, Veias abertas sangrando profusamente, onde “Na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre”, Veias Abertas narra o ponto de vista dos vencidos, dos ditos outros, os párias . Do período colonial até a contemporaneidade, Veias abertas é o retrato claro das formas em que a região foi explorada, degradada, espoliada e assolada pela ganancia humana e pelo modo de produção econômica, primeiramente oriunda da Europa, depois ficando a mercê do julgo dos Estados Unidos Da América. CCfpIoqWIAAtVr0.jpg Enquanto colônia europeia, a América-Latina viveu sob constantes saques de seus minérios, como o ouro e a prata, a famosa febre do ouro que ensandeceu europeus na busca pelo “el dorado” na América. Do Enorme genocídio cometido contra a massa da população indígena usada como mão de obra descartável; sua expulsão das próprias terras; a destruição de grandes civilizações como a Inca e a Asteca realizada pelos conquistadores espanhóis em busca do vil metal; O tráfico negreiro transladando milhões de seres humanos feitos gado de corte em porões de navios acorrentados por grilhões de ferro; as revoltas dos oprimidos contra as forças de poder estabelecidas; A instabilidade política, econômica e social da região; a pobreza que assola o território Latino-americano; os mandos e desmandos das grandes empresas multinacionais; os golpes militares. Tudo isto Galeano decanta e exprime de forma singular, numa linguagem acessível ao grande publico.

Como o próprio Eduardo Galeano Definiu, Nós Latino-americanos perdemos porque alguém acabou ganhando com nossa perda, e ganhando muito. O Capital internacional e todo o seu ônus cumpriu seu papel de exaurir os recursos humanos, culturais, ambientais e econômicos destes tristes trópicos. A região é dependente desde sempre, primeiro com a Europa, e depois com os Vizinho Estados Unidos. As relações de poder tiveram seus eixos deslocados somente na parte de cima, pois em baixo ainda permanece a América-Latina sendo vilipendiada. Galeano escreveu “VEIAS ABERTAS” em 1971, e infelizmente ele permanece um livro atual e crucial para entender a situação latino-americana. galeano.jpg Galeano sofreu na pele a própria História que escreveu, pois teve que exilar-se na Espanha após o golpe militar no Uruguai em 1973, acompanhando a onda que assolava a América do Sul com instituição de governos militares, como no Brasil, Argentina, Chile e Paraguai. Todos seguindo a mesma receita dada pela cartilha ditatorial imposta por Washington: abertura ao capital externo, sufocamento da indústria nacional, censura, tortura de opositores, supressão de direitos políticos e civis. Mesmo com a redemocratização, o neoliberalismo afundou ainda mais a América-Latina no abismo social, uma ferida que ainda faz sua gangrena mal-cheirosa.

Tudo aqui descrito nos remete e faz pensar que na verdade, o que Eduardo Galeano escreveu quase 45 anos atrás é uma crônica de uma tragédia ainda atual. A região da América Latina ainda sofre com boa parte dos infortúnios que a acometeu no passado. A População de origem indígena e negra ainda vive em condições de pobreza e sujeitas aos mais diversas permanências de uma sociedade racista e classista; permanecem grupos antidemocráticos em diversos países da região, como podemos perceber no Brasil com setores da sociedade pedindo intervenção militar e deposição de uma presidenta eleita democraticamente; a economia ainda é dependente do capital externo e atrelada aos interesses do mercado internacional e dos grandes conglomerados de empresas multi e transnacionais. Mas assim como descrito no livro, ainda se resiste por estes cantos, avanços foram feitos e aos poucos a região tenta erguer-se e fazer valer suas próprias vontades, e a História e seu estudo servem como peça fundamental para sacramentar estes avanços. Como o próprio escritor definiu: “A História é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será.”


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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