escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

A Seleção já não pertence mais ao brasileiro

Corrupção, descaso e a "venda" da Seleção Brasileira de futebol como mera mercadoria a afastam cada vez mais do público brasileiro.


Não é novidade para ninguém os inúmeros casos de corrupção que tomam conta da CBF a décadas. Uso da marca da Seleção para fins privativos, sonegação fiscal, evasão de divisas, troca de favores, acordos obscuros, tráfico de influencias, abuso de autoridade, subornos, escândalos de imagem, financeiros, além dos fiascos futebolísticos em campo como a maior vergonha para o futebol brasileiro que significou os 7x1 frente à Alemanha na copa de 2014 em pleno solo nacional. Reflexo do caos instaurado no futebol brasileiro, um desavergonhado disparate abraçados por cínicos e hipócritas dirigentes de alma espúria, com condutas e medidas nada benfazejas ao combalido esporte bretão brasileiro.

Parece que tudo que rodeia a seleção e o futebol brasileiro está longe de sua essência e aquilo que realmente representa para a História do esporte mais popular do mundo. Vai indo pelo ralo da corrupção e incompetência dos cartolas brasileiros a alegria de vermos nos gramados dribles, comemorações, gols, grandes jogadas, defesas milagrosas e a tradicional irreverencia de um futebol que encantou e ainda (mesmo com todos os últimos vexames dentro e fora de campo) é considerado o melhor e mais bonito praticado ao redor do globo. Porém, esta essência de nosso futebol puro e juvenil rapidamente foi substituída pelo futebol negócio, nas negociatas de empresários na bolsa de valores futebolística, aliado é claro a conivência de dirigentes esportivos achacadores e corruptos. Casos e mais descasos com a estrutura de nosso futebol instaurou um caos de proporções aterradoras. Tudo citado no paragrafo acima acontece a um bom tempo, é verdade. Mas os últimos anos demonstram o caráter de uma corrupção privada servindo a interesses de um pequeno grupo mandando e desmandando no futebol brasileiro, se deleitando nos seios do futebol, e em especial a CBF, tornando a seleção brasileira deles e não do brasileiro. As administrações de João Havelange e posteriormente de Ricardo Teixeira, estão inundadas de vastas e deploráveis denuncias sobre casos de corrupção. O Obscurantismo das relações de Havelange durante sua presidência na FIFA Com a ditadura brasileira e Argentina durante a copa do Mundo de 1978, por exemplo, demonstram onde as relações de poder do futebol com politica e economia durante o mandato de Havelange teve aspectos de um absolutismo em prática tirânico aliado a governos ditatoriais violentos até a ultima gota de medula.

Com Ricardo Teixeira assumindo a presidência da CBF foi, digamos na prática, o que ocorreu na troca de poder da Família Corleone quando Don Vito a Lugar a Michael Corleone, seu filho, no filme Poderoso Chefão. Alias o filme e seu enredo acaba retratando de maneira cinematográfica o que a CBF se tornou: um balcão de negócios escusos feitos embaixo dos panos. A CPI do futebol, instaurada em 2000, apontou inúmeras irregularidades em negociações fraudulentas envolvendo a alta cúpula da CBF bem como o atual mandatário da Época, Ricardo Teixeira. O escândalo da ISL onde foram feitos pagamentos em propina girando nas cifras de 100 milhões de dólares, e o caso Nike onde a CPI apontou irregularidades como evasão de divisas e lavagem de dinheiro, entram no hall dos abusos dentro da instituição que controla o futebol do Brasil. Basta dar um click no Google sobre Havelange e Ricardo Teixeira que a lista de escândalos e denuncias é imensa. cbf_jogo.jpg Um fator também aliado a estes interesses dos que comandam a CBF é a conivência tanto de políticos, empresários, dirigentes e boa parte da mídia, em especial a televisão. Os políticos e dirigentes, querendo garantir para si uma parte no bolo de cargos, benefícios pessoais e lucros indevidos, fecham os olhos e são omissos a todo este grande esquema de corrupção. Empresários buscando vantajosos contratos de publicidade, ou expor seus jogadores na vitrine que é um atleta usar a camisa da seleção brasileira e assim ter seu passe valorizado no mercado, se calam e lavam as mãos como se isto nada tivesse relação com seu trabalho.

Mais indecorosa ainda parece ser a relação entre CBF e grandes grupos de mídia, em especial a TV Globo. Sempre tão combativa em denunciar as fraudes e casos de corrupção do governo, a Globo e seus veículos de comunicação aparentemente, fecham os olhos e fingem-se muitas vezes de surdo e mudo no tocante aos métodos espúrios que a CBF utiliza na sua administração. A Globo foi de fato, uma grande aliada ao longo dos anos, se valendo de exclusividade de contratos para televisionar tanto a Seleção Brasileira quanto os campeonatos nacionais. Na Prática a TV Globo se tornou emissora oficial da CBF, controlando a grade de horários dos jogos realizados pelos clubes brasileiros e da Seleção. Vale lembrar que esta aliança significou a implosão do Clube dos 13 em 2011, entidade que reunia os clubes brasileiros e defendia, ainda que fragilmente, o interesse destes frente a CBF e a própria Globo, que para manter seu monopólio nas transmissões dos jogos, usou de toda influencia para destruir a já instável união dos clubes nacionais.

Mesmo com a saída de Ricardo Teixeira da presidência, a situação até em alguns aspectos piorou. A ascensão do nebuloso José Maria Marin ao cargo de presidente, ex-deputado biônico da ditadura militar na década de 70, com uma ficha chafurdada em denuncias e casos de corrupção tão vasta como de seus antecessores, só tem-se a lamentar. Foi em seu mandato que em 2012 foi assinado o acordo de “VENDA”, quase num sentido literal, da seleção a um grupo Internacional com sede no paraíso fiscal das Ilhas Cayman. Documentos provam a forma em que se entregou a Deleção à interferência de empresas e empresários envolvidos no mundo do futebol, muitos sediados nos paraísos fiscais, longe do controle da receita Federal e de outros órgãos reguladores. Em suma, os interesses comerciais e financeiros transformaram a seleção num excelente balcão de negócios para estes, relegando para segundo plano o bem do futebol e as vitórias do escrete canarinho. José Maria Marin também já se foi da presidência, mas deixou em seu lugar outro ser que segue a mesma toada deprimente dos anteriores: Marco Pollo Del Nero, ex-presidente da intransparente federação paulista de futebol. Camisa da Seleção Brasileira Leiloada.jpg Um reflexo disto veio ano passado, no massacre e vergonha transmitida ao mundo inteiro de nosso maltratado e descuidado futebol. O 7x1 foi muito mais do que mero resultado construído dentro das 4 linhas: foi derivado de toda a estrutura podre que embasa no futebol brasileiro, futebol este parte de nossa sociedade. Logo todos os grandes problemas da sociedade brasileira estão presentes no futebol. Concentração de renda, corrupção em larga escala, desigualdades, racismo, intolerância, exploração, uso do bem publico para fins privados e do mercado: nosso futebol reflete todas as mazelas do país.

Nossa História é a mais lembrada e eternizada nos gramados. O grande futebol herdado de Garrincha, a alegria do povo e suas pernas de anjo tortas destruindo seus marcadores “João”; Pelé sendo coroado Rei e atleta do século XX, parando uma guerra com seus 1000 gols; a seleção de 70 com gênios do goleiro ao ponta-esquerda; a melhor seleção do mundo que nunca foi campeã, a de 82, muito mais lembrada do que a campeã naquele mundial, a Itália. País revelador de craques como Romário, Zico, Tostão, Sócrates, Falcão, Nilton Santos, Didi, Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo hoje agoniza com uma estrutura fraca e inexistente para um futebol profissional de qualidade, onde os melhores jogadores se evadem do país para o exterior, perdendo seus valores para campeonatos esdrúxulos como os do Oriente Médio e Leste Europeu, no fatiamento das categorias de base e seus jovens pelos empresários, na falência de boa parte dos clubes brasileiros, salários atrasados e divida astronômica, a higienização social perpetrada com os abusivos preços de ingressos destas arenas “PADRÃO FIFA” afastando as massas populares dos jogos, monopólio midiático influindo nas decisões fazendo o jogo virar extracampo. O Frase do lendário Cronista Nelson Rodrigues parece ser verdadeira para nossos mandatários do futebol: “Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos”.

Hoje a Seleção Brasileira não possui nenhuma confiança ou o amor que o brasileiro tinha por ela como antes. O brasileiro, graças ao que fizeram a imagem e o que representa atualmente a seleção, está virando as costas para a amarelinha. Hoje o menino pobre que joga futebol nas periferias brasileiras não sonha mais em vestir a camisa da seleção, mas sim de algum milionário clube europeu como Real Madrid ou Chelsea. Sinal dos tempos e sua conjuntura, que nos forçam a tentar reverter este quadro espinhoso de descaso a um patrimônio nacional. Não Precisamos de um milagre, mas sim de um basta nesta situação, afinal das contas, o futebol era para ser uma caixinha de surpresas e não de propina.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Guilherme Lima