escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

Os Artistas esqueceram os Vencidos?

A falta de engajamento dos Músicos e artistas de grande alcance, para com as causas humanitárias no cenário atual.

“Roger Waters faz apelo para Gilberto Gil e Caetano Veloso cancelarem seus shows em Israel em repudio a ações do governo israelense contra a população palestina”.

  Em Meio aos artistas com alcance e mídia monumental de nosso tempo presente, O ex-integrante do Pink Floyd parece ser uma gota d’agua de engajamento por uma causa em meio ao descaso no Oceano alienado dos artistas do Mainstrean. É pertinente e de certa forma vergonhoso, a omissão de artistas com forte impacto midiático para com as causas humanitárias, sejam elas globais, nacionais ou num nível micro, como numa pequena região onde o artista nasceu.

  Parece que o ocorre no mundo já não tem mais nenhuma importância para o mundo artístico, A arte engajada, transformadora da realidade se perdeu em meio às cifras bilionárias de contratos publicitários, acordos comerciais e outras facetas financeiras. Neste contexto, o show business define bem tudo isto: crianças sendo mortas por estilhaços de bombas do exército Israelense na Palestina ou um país inteiro soterrado num terremoto no Nepal não são de suma importância, pois o show não deve parar enquanto o artista, e, sobretudo seu empresário, lucrar.   music-band_aid-live_8-charity_record-famine-africa-rron141_low.jpg  Pode-se argumentar que o mundo mudou, e que o ambiente político-social não é o mesmo das décadas de 1960, 1970 e 1980. Mas mudou mesmo? Ainda ocorrem conflitos raciais extremamente fortes pelo mundo, como recentemente nos assassinatos repetitivos pelas forças policiais nos EUA de jovens negros e no massacre perpetuado por um terrorista de extrema-direita branco em uma igreja frequentada por negros; a América-Latina ainda sofre com o narcotráfico, sobretudo o México onde estudantes são silenciados a base da bala tanto pelo estado mexicano quanto por grupos paramilitares de mafiosos e traficantes; a África ainda se encontra num atoleiro devido à injustiça social e econômica, guerras étnicas, conflitos por recursos naturais, fome, epidemias de doenças mortais como o Ebola; A imigração ilegal e toda sua problemática causando mortes, desde o Mar Mediterrâneo ao Oceano Indico; Guerras como a do Iraque e Afeganistão se assemelham muito ao Vietnã e outros conflitos da segunda metade do século XX.

  Ao que tudo indica, os grandes artistas de nossa grande mídia esqueceram os “vencidos” e se conformam a seguir sua produção e retorno financeiro com seus shows, propagandas feitas e um sorriso tão amarelo quanto uma casca de banana. Os tempos de empatia por um movimento ou causa comum se encontram num limbo, sugados pelo buraco negro do individualismo, lucros exorbitantes e alienação tácita de músicos, cantores, atores. Em suma, parece que a classe artística em boa parte se recusa a aceitar a realidade, talvez por medo e coação daqueles que os pagam, mas também por conivência com toda a situação, extraindo até mesmo benefícios do caos. Live8_05TB.jpg

  Grandes festivais com algum sentido de conscientizar e transformar, possibilitar ideias além de ferramentas para uma possível reflexão sobre como a sociedade em si tinha problemas que precisam ser sanados e combatidos, como o live 8 dos anos 1980 e até mesmo o Woodstock, são eventos que nas condições atuais de egoísmo e picuinhas de acordos publicitários e comerciais dos artistas, tornam-se uma utopia praticamente impossível de concretizar-se.

  Claro que o uso da autopromoção da própria imagem perante o publico também se deve por como critica a muitos que usam as causas humanitárias como bandeira em sua carreira. Mas isto não pode servir como regra muito menos generalização que acabe fazendo o próprio artista se inibir, ausentar-se de ter um posicionamento firme sobre muitos assuntos, principalmente em questões como direitos humanos, civis, políticos e sociais.

  Nesta segunda década do século XXI o que se percebe é uma classe artística de grande impacto cada vez mais desinteressada por questões humanitárias. Vivemos o auge da cultura ostentação, em que ter está muito mais acima do ser, na falsa sensação de felicidade na acumulação de bens materiais e propagar esta ideia aos 4 cantos com um belo pau de selfie.

  Deixo um pensamento do grande escritor uruguaio Eduardo Galeano sobre os vencidos, vulgo ninguéns, resumindo toda a questão da situação em que vivem estes seres sem nenhum interesse por parte dos artistas:

"Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada. Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos: Que não são, embora sejam. Que não falam idiomas, falam dialetos. Que não praticam religiões, praticam superstições. Que não fazem arte, fazem artesanato. Que não são seres humanos, são recursos humanos. Que não tem cultura, têm folclore. Que não têm cara, têm braços. Que não têm nome, têm número. Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local. Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.”


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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