escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

Sobre o refugio do casulo e a tortura da noite social

a cronica do cansaço e noite de obrigações numa socialização falseada.


“Como escapar das sensações acerca do desconforto que emana de si mesmo? A fúria crescente por não compreender-se aflora nas ditas coisas pensadas no maquinário cerebral, injetando duvidas pejorativas ou certezas solitárias acerca do fazer inerentes as dores do mundo. Processo gradual e extenuante, as forças aparentemente vão esvaindo-se juntamente com a vontade ou misero desejo de encarar a crueza dos fatos: A vida lá fora não é um final feliz propagado pelos contos de fadas. Enfim, acho que esta noite a preferencia pela minha série ou livro preferido é conforto e refugio se comparado à frustração de arrumar-me mais uma vez para perceber pessoas eternamente vazias e garrafas sempre cheias.”

São conclusões de um pessimismo crasso que de certa forma nos toma conta em muitos aspectos da vida atual: o sair de casa é opção relegada a segunda plano sempre quando pensamos nos incômodos que isto pode trazer se comparado com o confortável casulo de nossas residências. É de praxe encarar esta situação quando nos sentimos mais frágeis emocionalmente, entretanto, tem sido costume cada vez maior para muitos, mesmo que bem resolvidos com suas cicatrizes sentimentais. A muito já se percebe um movimento, ou ao menos a sensação, de que festas, baladas e derivados são eventos sociais obrigatórios para boa parte dos humanos, usando da tentativa de socializar-se a força com semelhantes em uma tortura das mais cruéis. solidc3a3o.jpg Problema dos mais incômodos, a obrigação de incluir-se dentro de círculos sociais, enturmar-se com outrem parece na maior parte do tempo, uma tarefa com certo viés melancólico, algo similar a passar os dedos rapidamente sobre uma chama de vela: a principio parece ser algo sedutor, mas uma hora acabamos nos queimando. A queimadura age como marca nestes casos, a marca de amadurecer através da experiência negativa de fazer cerimonia e fingir ser o que não é pela noite envolta destes prazeres como álcool e outras drogas para nos socializarmos, fazer a ilusão quase ser real, enquanto a utopia é apenas enganada pela liberação da endorfina passageira no cérebro.

Nisto tudo reside o velho pano de fundo para o jogo do véu das aparências, do parecer ter em detrimento do ser. Isso frustra de tal maneira qualquer perspectiva de divertimento a sair perambulando pela noite em busca de amenidades. Expectativas que vão por terra, gastos com inutilidades, risadas histéricas ocultando o desespero de muitos vivos-mortos querendo demasiada atenção. De semana a semana vamos empanturrando-nos com as falsas promessas das propagandas e anúncios publicitários, onde pessoas alegres bebendo seus drinks não refletem a verdade de um bêbado agarrado a um vaso sanitário pondo para fora boa parte do seu suco gástrico. 8TBHT0Qr-zk.jpg

O mais claro dentre tudo explanado neste pequeno relato é que na pratica, posso condenar isto tudo, mas uma aqui e acolá, volto a fazer estes costumes que aqui condeno. Nesta hipocrisia de condenar a própria conduta, faço um brinde ao conformismo de velhos hábitos nocivos. A bem da verdade tudo isto é a morfina que nos entorpece e anestesia, verdade dos fatos, de que nossas capacidades e vontades são induzidas. Somos eternos Maria-vai-com-as-outras, preguiçosos demais para seguir de acordo com as próprias ideias.

Nos impomos mascaras das mais variadas nestas situações, sejam elas de pierrô contente ou de arlequina efusiva. Estamos apenas atuando, como se o ambiente das festas fosse um grande palco de teatro. Ali encaramos o papel ad eternum da tragédia cômica grega: começamos rindo e se portando como heróis divinizados, mas finalizamos a peça como um louco ensandecido por seu desafortunado destino melancólico. Seria eu? seria você? seria algo aqui descrito relatado por um amargo "velho" que não se diverte? O mais provável é que sejamos todos.


Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC.
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