escritos da ansiedade

Ideias de alguém tentando não viver o futuro no presente

Guilherme Lima

manias acompanhadas de TOC

Arquitetura da Destruição: O Ideal de Belo Maligno

A arte, arquitetura e a Ciência deturpadas pela ideologia Nazista retratada no documentário "ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO"


Premiado por sua excelência, o documentário Arquitetura da Destruição (Undergångens arkitektur) trata brilhantemente do ideal de sociedade que o Nazismo carregava em seu bojo filosófico nada aprazível. Lançado em 1989 pelo diretor sueco Peter Cohen, o filme permanece como um dos melhores documentários que abordam a temática dos ideais Nazistas e o que estava por de trás de todo o pensamento racista, xenofóbico e das mais variadas formas de preconceito para determinar a superioridade de uma “raça” e povo sobre as demais.

O trabalho realizado por Peter Cohen se distingue das demais obras sobre o tema até então é o vislumbre de que todos os atos e justificativas perpetradas pelo regime Nazista eram ideias há muito em voga na sociedade ocidental como um todo na época: Superioridade Racial branca; antissemitismo; teses de eugenia; ideal de beleza estético; culto às formas bem definidas do corpo; Em suma, tudo que não pertencia e não se encaixava nos padrões sociais, eram vistos como abomináveis e precisavam ser extintos, de acordo com o pensamento nazifascista. De certa forma, muitas monstruosidades cometidas por Hitler e seus seguidores eram tolerados pelo individuo comum, seja por medo, conivência ou desinteresse pessoal, permitindo que o regime nacional-socialista alemão pusesse em prática seus planos nefastos de Higienização social.

O documentário segue três eixos: A fixação paranoica dos nazistas na busca de um ideal de embelezamento da sociedade, O uso da Medicina para legitimar o discurso de estar “limpando a Alemanha” dos males físicos das pessoas e coisas dita fora dos padrões, e a associação nada aprazível da etnia judaica a pragas e doenças, como ratos e câncer. Em suma, os nazistas tinham a crença tresloucada de que a sociedade com estes componentes, fora da estética condizente à norma padrão, estava doente e somente o nazismo ofereceria esta “cura”. Judeus, ciganos, comunistas, homossexuais, deficientes físicos e mentais, ou simplesmente ser contra este enquadramento proposto como projeto de mundo: estes pelo prisma nazista deveriam ser varridos da sociedade, pois aos olhos de sua ideologia torpe, eram espécies de tumores que precisavam ser retirados do mundo para não contaminarem a raça ariana. arquitetura_da_destruicao_03_crop_grande.jpg Essa busca de uma sociedade utópica e especifica do nazismo é algo assustador, pois envolveu todo um aparato estatal que embasava, auxiliava e executava diversos projetos em torno da meta de purificação da “raça”. Cientistas, artistas, intelectuais, arquitetos, políticos e tantos outros indivíduos considerados a nata da sociedade alemã contribuíram para as mais nebulosas práticas cientificas, culturais, sociais no estado alemão durante o governo de Adolf Hitler, Seduzidos pela ótica nazista de progresso cientifico e social através da ciência e de uma “racionalidade superior” as demais. O mais curioso disto tudo é como os atos genocidas cometidos pelo nazismo( por ordem de seus chefes e mandatários)foram executados por homens e mulheres comuns, pessoas nada excepcionais, demonstrando toda a faceta banal que o mal pode assumir.

A arte vai ter um papel preponderante para os objetivos do nacional-socialismo enquanto projeto politico-ideológico. Bebendo das tradições do movimento romântico alemão bem como da obra do compositor Richard Wagner, o nazismo se aproveitava e interpretava erroneamente a filosofia alemã, usando as ideias de filósofos como Nietzsche de modo deturpado e anacrônico. Misturando conceitos e modelos da cultura nórdica e greco-romana, os nazistas consideravam-se herdeiros destas sociedades, bem como toda sua cultura de forte apelo estético e das figuras corporais robustas, vistas, sobretudo nas esculturas gregas e romanas. O próprio Hitler tinha uma fixação quase que doentia pela arquitetura grega, tanto que ordenava a seu arquiteto pessoal Albert Speer reconstruir boa parte das cidades alemãs usando os modelos de construção gregas. É nesta conceituação de belo que o nazismo irá condenar tacitamente a arte moderna, destruindo muitas obras. Aos olhos do estado nazista a arte deste tipo era indecorosa, imoral e horrível, sem nenhum componente de ordem e disciplina artística, com traços indefinidos e pinturas achincalhadas como “defeituosas”. 134-Undergångens-arkitektur-Arquitetura-da-Destruição.jpg Também serão de importância para a legitimação do discurso nazifascista argumentos baseados no cientificismo. Se ancorando em pressupostas de eugenia racial e do darwinismo social, o documentário aponta que boa parte da classe médica alemã aderiu ao ideal nazista. Muitos médicos, enquanto buscavam tratar seus pacientes de doenças como câncer e pneumonia, estavam envolvidos até o pescoço nos projetos de extermínio em massa dos seres considerados “inúteis e perigosos à genética da boa raça ariana”. Começava ai o germe da ideia da solução final Judaica, usando como parâmetro durante a segunda guerra o extermínio em massa de deficientes em um período anterior. Os campos de concentração sairiam dai, já que as formas de execução iniciais eram precárias e deficitárias, pois estes antros da morte estavam nas proximidades das cidades alemãs, o que gerava um desconforto tremendo a população, com o cheiro de carne humana se decompondo e queimando. Desde então, a preocupação nazista para ocultar estes fatos e não deixar rastros desta indústria da morte montada era evidente, a fim de não chocar e serem reprovados pela população. A associação então dos judeus com pragas gerou diversos filmes governamentais visando convencer a população do “mal judaico”. Uma curiosidade maligna disto tudo é, que o mesmo gás utilizado para controle de pragas seria utilizado nas câmaras de gás dos campos de concentração, o mal fadado Zyklon B.

Arquitetura da Destruição é uma obra excelente para entender-se o cerne da origem do nazismo. Ele retrata de forma clara e precisa como a ideologia nazista foi incutida e induzida, consciente e inconscientemente em todas as esferas da sociedade alemã, refletindo no conformismo e tolerância aos atos criminosos realizados pelo Terceiro Reich alemão. E o Mais importante da mensagem que o documentário deixa claro é que por mais que centralizamos o mal nazista na figura de Adolf Hitler e de outros lideres, o discurso destes foi abraçado e adotado a risca por milhares de homens que teoricamente tinham um conhecimento e bagagem educacional esclarecida, fator vital para a aceitação dos métodos, planos e projetos sociopatas do nazismo.

Documentário legendado e completo no youtube:https://www.youtube.com/watch?v=IBqGThx2Mas


Guilherme Lima

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